Casa Grande, de Fellipe Barbosa

O problema em Casa Grande – ou drama – não é fruto das personagens. Está ao fundo, implícito. Tentador, por isso, pensar no som ao redor transmitido pelo filme de Kleber Mendonça Filho – por todos os cantos, incômodo, mas às vezes difícil de ver.

O drama é natural, aos poucos invade a vida da família rica: o filho de 17 anos deseja conhecer mais o mundo, descobrir-se sexualmente; o pai e a mãe lutam para salvar suas finanças, para sustentar a casa grande às sombras no início.

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Tal plano, por sinal, contrapõe-se ao último: se na abertura a bela casa aos poucos se apaga, de fora para dentro, mais tarde é a pequena, em um bairro pobre carioca, que se abre para o mundo – quando o menino tem sua aventura sexual e deixa a luz entrar.

Não há vilões, importante dizer: o pai, que em outros casos poderia servir à caricatura do “porco capitalista” e “explorador”, é um bom pai. É produto do meio, da criação, que luta para dar o melhor aos filhos – e, às vezes, solta algumas bobagens, como “dane-se a biologia”, quando o assunto é escola.

Pensa, sim, na economia, no direito, nos cursos que podem garantir ao filho a trilha que ele próprio tomou: a vida como alguém do mercado financeiro.

O protagonista é o menino, Jean (Thales Cavalcanti), com nome francês, ao gosto da mãe. Tem uma irmã falante, quase sempre não ouvida, mas que fornece questões importantes – como os gritos finais, quando todos pensam que Jean foi sequestrado.

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O pai, Hugo (Marcello Novaes), quer ver o filho focado nos estudos, nas ideias do lado que representa, e não deixa o menino ver seus problemas: depois de investir em ações, nesse mercado arriscado e inconstante, sofre com as quedas, com a quebra.

O início, por sua vez, retorna à mente: anuncia o apagar das luzes, o fechamento, a ida às sombras que se guarda na grande casa: as aparências sob as quais o pai mantém-se, destinado a proteger sua prole dos sinais externos.

Mas o filho, ao ir de ônibus para a escola, após a demissão do motorista, é naturalmente tragado pelo “diferente”. São os sinais de fora da grande casa, que não pode protegê-lo para sempre. No ônibus, conhece uma garota afrodescendente, de escola pública, de bairro mais pobre.

O choque não será ignorado, ou não pode ser: circula pelo som ao redor, até atingir o centro do drama, quando Hugo e a menina, Luiza (Bruna Amaya), discutem sobre cotas raciais durante um churrasco de família.

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O diretor Fellipe Barbosa consegue melhores resultados quando investe em sutilezas, não quando aposta em diálogos que opõem personagens. Acerta ao eleger Jean o protagonista, o adolescente entre dois mundos. A partir dele, vê-se a transformação inerente aos tempos de crise.

E, ao adolescente, a crise financeira é apenas o empurrão para fora da casa grande: a crise maior envolve sua incursão pela sexualidade, pelas descobertas, naquele outro espaço pouco estreito, sem “mocinhos e bandidos” ou sonhos de infância. Sobretudo, sai em busca de outra janela, outro ponto de vista.

Jean, em sua grande casa, vive as separações: precisa sair em silêncio, sem soar o alarme, para se encontrar à noite com a empregada. À mesa, no jantar, a mãe fala com o pai em francês para que os outros – incluindo a empregada – não saibam da situação financeira da família.

Faz pensar em A Negra de…, de Ousmane Sembene, grande filme em que a língua é também usada como forma de exclusão, com os diferentes espaços em que criados e patrões alimentam-se, com o drama que grita ao fundo e ameaça explodir.

Nota: ★★★★☆

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