A Caça, de Thomas Vinterberg

As crianças não mentem, acreditam os adultos de uma pequena cidade em A Caça, de Thomas Vinterberg. Não, pelo menos, com a intenção de prejudicar alguém ou com a consciência do que pode acontecer depois.

As crianças criam suas próprias histórias. Ao que parece, passam a acreditar nelas. A criança em questão, no filme de Vinterberg, diz à diretora da pequena escola que um de seus funcionários mostrou-lhe as partes íntimas.

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A diretora choca-se: crê cegamente que as crianças não mentem. E, mais tarde, as crianças ajudam a entender o motivo dessa crença: elas estão no altar de uma igreja, quando a vida do suposto culpado, Lucas (Mads Mikkelsen), já foi destruída.

São como anjos. O pobre adulto é o diabo entre todos. A igreja, então, assume posição de destaque no filme, que vai além do suposto caso de pedofilia. As pessoas da cidade são intolerantes, não querem tentar ouvir ou entender o acusado. Seus anjos não poderiam dizer nada que escape à verdade.

Não se trata de culpar a criança. Os culpados não são vistos com facilidade, como mostra a sequência final: quem puxa o gatilho contra Lucas não é uma pessoa, mas toda a sociedade. Todos são tomados pelo ódio fácil: expulsam Lucas de espaços públicos, matam seu cão, não sentam ao seu lado na igreja.

É no interior dela, por sinal, que ele precisa encarar seu melhor amigo, o pai da menina que o acusou de abuso. Ele revolta-se, levanta, pede que o amigo encare-o. Pelo olhar, e menos pelas palavras, deseja que os outros vejam a verdade.

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Ainda assim, as opções de Vinterberg são curiosas. O olhar de Lucas, mais tarde, retorna para cruzar com o da menina. O que pensam? O que sabem que todos parecem não saber? Ao espectador, melhor acreditar na inocência quando há dúvida. Melhor do que simplesmente se deixar tomar pelo ódio precipitado, como todos os outros.

O protagonista tem esse mistério. Questiona o espectador. Sua explosão demora a ocorrer. Ao mesmo tempo, é humano demais, homem simples que brinca todos os dias com as crianças da escola, comporta-se como pessoa exemplar.

O título refere-se à caça aos cervos, na floresta, também à caça ao protagonista. Ou mais: refere-se a essa sociedade acostumada a caçar, que precisa ter sua vítima e seu opressor, que não pode ver nada entre anjos e demônios, entre inocentes e culpados.

O tiro ao fim serve de aviso. As pessoas ao redor continuam a observar e a culpar o protagonista. O que prevalece está oculto sob as luzes do crepúsculo – mais do que a inocência ou a culpa. Ou atrás do olhar de diferentes homens, no momento em que o filho de Lucas ganha seu primeiro rifle, seu direito à caça.

(Jagten, Thomas Vinterberg, 2012)

Nota: ★★★★☆

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