O Grande Motim, de Frank Lloyd

Os marinheiros britânicos são os verdadeiros selvagens em O Grande Motim. Para implantar a ordem, o capitão do barco castiga seus subordinados: qualquer deslize leva a um punhado de chibatadas, ao racionamento de água e comida, às piores ações.

O HMS Bounty segue da Inglaterra ao Taiti para buscar alimentos aos escravos. A viagem, como se vê, torna-se um inferno. O capitão Bligh (Charles Laughton) abusa de seu poder e enfurece Fletcher Christian (Clark Gable), o verdadeiro herói.

o grande motim

Ao chegar à ilha, os viajantes encontram o paraíso: entre os nativos taitianos impera a paz e a tranquilidade. Não há dinheiro, cobiça, não há mal algum. O problema está sempre entre os homens brancos, na convivência com regras e poder.

No mar, entre eles, há sempre o pior: as plantas levadas pelo barco – supostamente em nome da ciência, ou por simples capricho – recebem mais água do que alguns marinheiros. Mais tarde, quando estes se rebelam, Bligh é lançado ao mar, em um bote, com seus protegidos. As plantas também – ao sal e ao sol.

Com esses extremos, o filme de Frank Lloyd, a partir da obra de Charles Nordhoff e James Norman Hall, questiona o progresso e suas consequências, seus abusos.

Em alguns momentos, as injustiças de Bligh mais parecem o desejo de ordem a qualquer custo – ainda que seu olhar mostre o oposto. No fundo, trata-se de um homem verdadeiramente mau, legítimo vilão cujo prazer é esfolar os outros.

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Do outro lado há Christian, correto mas flexível, heroico e responsável pelo motim. Ele segura-se o tempo todo. Depois não aguenta, explode. Entende que apenas o extremo pode combater o outro: decide tomar o barco e tem parte dos homens ao seu lado.

Há ainda outra personagem nesse jogo, o correto inglês que não pode fazer como Bligh, tampouco como Christian. Trata-se de Byam (Franchot Tone). O texto usa-o como esperança: para além do vilão e do adorável rebelde, há esse ser sempre correto, que, ao contrário de Christian, não chega a ter um filho com uma taitiana.

No fundo, ele não se mistura por completo. Compreende, antes de todos os outros, a língua daquele povo distante, sempre feliz e amigável. Sabe-se que tal sociedade não existe. Byam – capaz de apertar a mão de Christian sem trair a coroa – também não.

O filme de Lloyd mostra o fracasso do progresso britânico. Do outro lado, o paraíso idealizado no Taiti, de seres bons e sem ambiguidades. Ou apenas o exemplo para esses mesmos homens brancos: o melhor é tentar fundar uma nova civilização.

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Para evitar os erros de Bligh, precisam aderir à revolta de Christian. É nesse ponto que precisa existir alguém como Byam. Com ele, a sociedade ainda pode seguir como está, e ele pode, ao fim, olhar à grandiosidade de seu barco com orgulho.

Pois o filme termina com essa beleza. Apesar de tudo, a marinha britânica segue em frente e, com dificuldades, o revolucionário teve de colocar fogo em seu barco. Perto do fim, Christian parece um pirata. Navega entre a névoa. Quando um de seus homens tenta beijar uma taitiana, um nativo ataca-o e surge uma briga. O paraíso é abalado.

O desejo de Christian talvez não passe de um sonho. Ainda assim, não deixa de ser justo. O Grande Motim tem suas manobras para fazer o espectador crer no que parece verdade, ou no que o diretor acredita. Se depender do talento de Laughton, não será difícil convencê-lo.

Nota: ★★★★☆

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