As Duas Faces de Janeiro, de Hossein Amini

A forma como se observa o outro deixa saber quase tudo em As Duas Faces de Janeiro: suas personagens escondem mais do que revelam e acabam levadas a um jogo.

Em cena, a tentativa de sobreviver esbarra no incontornável desejo. Por um bom tempo, o diretor Hossein Amini prefere o silêncio, a sugestão, com seus seres inconfiáveis.

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Tão perto da certeza estão as personagens, por isso mesmo do fracasso. O casal ao centro, Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst), precisa escapar da Grécia, onde ele envolveu-se em um assassinato.

Para tanto, aceitam a ajuda de um jovem guia turístico, Rydal (Oscar Isaac). Tentar esconder o suposto triângulo amoroso é desnecessário. Tal relação grita, faz a trama ganhar emoção, a partir da obra de Patricia Highsmith.

É pela emoção – o amor de ambos à mesma mulher – que esses homens sempre voltam atrás: quando parecem se despregar do passado impresso na imagem dela, sucumbem ao óbvio. Como o Rick de Casablanca, ainda guardam sentimentos.

A história passa-se no início dos anos 60, em uma Grécia que dispensa transformações. O passado está lá, em ruínas, buracos, sombras, vielas e pequenas estradas. Para cada homem há um passado a celebrar.

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Chester lutou na guerra, viveu a história recente. Rydal conhece a antiga história que emerge das ruínas: seu conhecimento baseia-se no passado distante, utilizado por ele para encantar jovens e belas turistas que caminham por ali.

Ao ver o casal, encanta-se, pois representa algo que talvez não tenha conseguido conquistar: a imagem de uma união sólida se observada a distância.

Ou novas vítimas para seus pequenos golpes. O que ele não sabe é que por trás de Chester esconde-se um golpista maior, em fuga. O que os une não é apenas a bela loura casada com um e levada pelos encantos do outro. Os mundos de ambos se tocam como as pontas do bracelete usado por Colette.

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A certa altura, a trama toma outro rumo. O filme fica mais pesado, mais rápido. Não perde o fôlego e o interesse. É sobre homens que sofrem por algo um pouco injusto: Chester mata duas pessoas sem ter a intenção clara; Rydal não consegue se despregar do casal e se vê obrigado a vender sua alma às autoridades.

Ainda assim, é difícil medir a emoção das personagens. São frias apesar da aparência romântica, das roupas brancas, leves, do chapéu panamá de Chester, do jeito desavisado de Rydal e da dificuldade de Colette em revelar seus desejos.

O diretor aposta, com razão, no que nem sempre vem à tona: pela manhã, Chester depara-se com a cama revirada de Rydal e não encontra sua mulher. Fácil compreender o que parece difícil de aceitar. Depois, os homens precisam se reencontrar longe da Grécia. Falam sobre perdas, evocam sentimentos. Não são tão cínicos como parecem.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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