Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

A velha estrela de cinema não se conforma com as recusas. Contorce-se, chora, pede ajuda a uma espécie de guru a quem as estrelas recorrem quando precisam se recuperar. De quebra, é assombrada pelo espírito da mãe morta.

Outras personagens, em Mapas para as Estrelas, também são assombradas por outros espíritos. Hollywood, cujo cenário não havia sido invadido antes por David Cronenberg, é uma terra de monstros, como em um filme de terror.

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Nesse sentido, não parece se diferenciar dos outros trabalhos do cineasta. O que interessa a Cronenberg é a podridão por trás das belas casas, da riqueza, do sucesso, da falsa imagem da bondade, dos gestos em público. As estrelas – algumas mais famosas, outras mais ricas – estão sempre sob o efeito da maquiagem.

Não estranha, por isso, ver a atriz no banheiro, no vaso sanitário, com problemas intestinais. Cronenberg descortina a vida nas grandes mansões, invade as conversas banais no banco de trás dos carros – com os motoristas que sonham em fazer sucesso e agem como idiotas – e os efeitos destrutivos do sonho.

Tudo leva à inevitável tragédia, àquele ponto final em que ela mescla-se à esperança que não existe mais: quando a câmera recua, os jovens permanecem deitados e as estrelas – de mentira, nos créditos – tomam a tela.

Não há esperança: tudo é falso, e todos estão tomados pelo desejo de morte. Todos estão fora do controle, fingindo controlar – e bem – suas próprias vidas, seus dramas, seus passados – levados à tela na forma de espíritos.

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A certa altura, lembra Cidade dos Sonhos, de Lynch. Mas Cronenberg prefere os efeitos trágicos, os detalhes reais. Permanece algo repetitivo, também o vazio que toma a vida de todos, nos encontros em grandes mansões, nas conversas à toa.

Los Angeles não aparece muito. Em seu pouco, é feia. Os estúdios são locais mecânicos, de puro trabalho, sem arte. Suas pessoas são simples. Falam aos outros como se sempre tivessem horror à vida, como se nada importasse.

Falam como se fossem donas de tudo, como se não houvesse vez à humanidade. A terra do cinema explode em cinismo: em cena, os suspeitos de sempre.

Há a menina aparentemente sonhadora e ingênua, que acabou de retornar à cidade. Ela é interpretada por Mia Wasikowska, o anjo transformado em monstro, a Alice do filme de Tim Burton. É a personagem mais interessante. Tem uma cicatriz do lado esquerdo do rosto e a certa altura sua marca é confundida com a maquiagem verdadeira.

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Em Hollywood, ela começa a trabalhar para a estrela Havana Segrand (Julianne Moore), cuja mãe, por coincidência ou não, morreu em um incêndio. Nesse mapa traçado por Cronenberg, as coisas aos poucos se confundem, mas as coisas certamente não se dão ao simples acaso. Na cidade das redes, o acaso não existe.

Ao chegar à cidade, a menina ingênua contrata um motorista, vivido aqui por Robert Pattinson. Nessa terra, nesse mapa, há sempre um pobre homem a conectar o espectador à realidade, à margem, também em busca do sucesso: ele é, aqui, o Joe Gillis dos tempos atuais, em busca de sua Norma Desmond.

A menina Agatha (Wasikowska) pode ter se apaixonado por ele. Terá de enfrentar o temperamento inconstante de Havana, também de confrontar sua antiga família, a tragédia passada, o jovem irmão – igualmente perturbado – que sobreviveu a um ato louco cometido por ela, quando colocou fogo em sua casa.

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A ligação maior, diz Cronenberg, não se dá entre a menina e a antiga família, mas entre ela e Havana. Enquanto Agatha expressa o anjo por trás do monstro, a outra é o oposto. E se a menina é transformada ao longo do filme, não é difícil entender o motivo.

Mapas para as Estrelas é diferente de outros filmes de Cronenberg. O amargor, contudo, continua intacto. Suas personagens – como em Gêmeos – Mórbida Semelhança ou mesmo em Cosmópolis – escondem-se em templos, com suas próprias regras, com a beleza que se desfaz, sem pressa.

Nota: ★★★★☆

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