O Justiceiro, de Elia Kazan

As testemunhas dizem ter visto o rosto do assassino. No tribunal, reconhecem o suspeito, apontado como o responsável por um crime difícil de acreditar: o assassinato de um padre. Todos acreditam que se trata do culpado.

O que move o drama de Elia Kazan, O Justiceiro, é o desejo de punição. Mais ainda, a teatralização da justiça: o tribunal torna-se palco para que o público – as pessoas da cidade – encontre seu alívio, seu culpado.

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Esse desejo de punição pode ser visto em outro grande filme. Em Fúria, de Fritz Lang, mais do que encontrar o criminoso, o que interessa é mostrar a mobilização da multidão, a busca por respostas quando as perguntas são insuficientes, como as pistas.

Sem querer, ou apenas por força de seu instinto, de seu faro, o promotor Henry L. Harvey (Dana Andrews) resolve abraçar o caso e provar que o culpado talvez seja inocente. Mesmo com os esforços de Kazan para dar um tom realista, o protagonista leva o espectador ao passado: ele ainda é o homem estreito do cinema clássico.

Ainda assim, a situação central é mais forte do que ele. Esse homem tem sua serventia, afinal: ele ajuda o espectador a lembrar – ainda que seja apenas um sinal para confiar nas instituições – que a injustiça não serve ao alívio coletivo.

Melhor uma cidade em dúvida, vivendo com dores devido à morte do bom homem, o padre. Como aquelas pessoas poderiam suportar tal situação? Na busca pelo assassino, por uma resposta, por uma simples solução, encontram a injustiça. Também a cegueira.

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Precisam de alguém para culpar. As semanas passam e ninguém é preso. É possível ver as velhas senhoras com os ouvidos colados no rádio, os comentários dos jornalistas à beira do balcão da delegacia, as mulheres debruçadas sobre suas sacadas de madeira. Todos abordam o mesmo assunto: a necessidade de punição.

A polícia encontra o homem perfeito para servir ao desejo da multidão: John Waldron (Arthur Kennedy), que estava fora da cidade e carregava uma arma. Alguém naturalmente fraco, de argumentos sempre insuficientes.

Os policiais responsáveis pelo caso (vividos por Lee J. Cobb e Karl Malden) precisam tirar sua confissão a qualquer custo. O interrogatório segue até o nascer do dia, o homem quase dorme sobre a mesa: a vitória dá-se pelo cansaço da vítima.

E ainda há espaço para a política: os poderosos da cidade precisam dessa condenação, precisam de uma vítima. Caso contrário, correm o risco de perder a próxima eleição – reflexo de uma sociedade que não crê em suas lideranças.

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Kazan amarra todas as situações ao espetáculo do tribunal: o circo montado ao fim será necessário tanto para cumprir a injustiça quanto o oposto, entende o protagonista de Andrews. E ele – correto como é, herói natural – não poderá fazer outra coisa senão oferecer o espetáculo da verdade, derrubando os argumentos das testemunhas.

O foco não é a busca pelo culpado. O Justiceiro apoia-se no barulho da sociedade, no caos causado pela morte do padre. Nesses momentos, os mais simples tornam-se os piores, como Lang já havia mostrado antes. Surge o espetáculo do horror.

Em mais de um momento, Kazan sugere que o assassino estava ali, entre todos, no tribunal. Ao revelar o suposto criminoso, Kazan confronta o próprio espectador: nem sempre o óbvio é o que parece. Prefere-se a dúvida à condenação cômoda.

Nota: ★★★★☆

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