À Sombra do Vulcão, de John Huston

Ao confessar seu desejo de ir embora, com exaltação, o cônsul aposentado Geoffrey Firmin logo volta atrás. Ele é inconsistente, não consegue manter a palavra. Seu universo é outro, no qual se deixa levar pela força da bebida. É alcoólatra.

Está no México – antes sozinho, depois com a mulher e o meio-irmão. Em algum momento, perdeu-se: tem dos outros o olhar de compaixão, como se olhassem ao homem que um dia foi. Em À Sombra do Vulcão, resta ao espectador apenas o presente, o alcoólatra e falastrão.

à sombra do vulcão

Há nele uma poesia perdida, alguém à velha moda do macho, um Hemingway quase levado à fraqueza, em meio a mexicanos estranhos e inconfiáveis.

Como lembra Paulo Francis, em um texto sobre o cineasta, “o cinema de Huston é macho, como ele”. Geoffrey tem essa gênese pouco a pouco enfraquecida, trêmula devido às intermináveis doses de bebida, às garrafas que acumula por todos os cantos.

Sabe-se ainda cedo, na abertura de À Sombra do Vulcão, que se trata de um homem condenado: aquele é o último dia de sua vida, com a mulher, o meio-irmão, nazistas, ciganas, prostitutas, artistas vestidos de deuses e diabos, além de atiradores.

Com seu terno branco, bengala, moedas sempre à mão, Geoffrey caminha entre túmulos. É o Dia dos Mortos. Esse culto flerta com o protagonista, dele não pode escapar. No cinema da cidade, o filme em cartaz é Dr. Gogol – O Médico Louco, justamente sobre a morte inescapável.

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A partir do famoso livro de Malcolm Lowry, com roteiro de Guy Gallo, Huston leva o espectador a acompanhar o caminhar dessa personagem curiosa. Após passar por um bar, termina em uma festa, onde faz um discurso também sobre mortos.

Se devem ser cultuados, então que seja com bebida e exagero, parece pensar esse homem de exageros comuns. Gritos também. Seu sofrimento é tapado, escapa por outros espaços. Ele é alma desse grande filme, ainda que esta lhe falte.

Pelos outros, talvez seja possível ver alguma grandiosidade: sua mulher, a bela Yvonne (Jacqueline Bisset), observa-o com amor, ou com pena. Ela encontra nele o que ninguém vê, o outro homem oculto, e seus olhos mostram essa glória perdida.

Pois é nessa dificuldade de enxergar que o filme dribla o drama esperado, também as palavras de sofrimento. É no estado do macho que reside sua força e também toda sua fraqueza: o mergulho incontrolado nas bebedeiras, a fuga a lugar algum.

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Sem enxergar, prestes a morrer, é também o homem à beira das transformações da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, à beira do vulcão que logo deve acordar. O cônsul britânico de velhas roupas, à moda antiga, será então parte do passado.

O homem em cena é cidadão do mundo, o estrangeiro, o bêbado. Quando a nacionalidade de Rick é questionada, ao longo de Casablanca, ele tem a resposta perfeita: “Sou um bêbado”. Poderia ter saído da boca de Geoffrey.

Para vivê-lo, Huston escalou Albert Finney, um dos melhores atores de sua geração, alguém cuja fúria e malicia caminham lado a lado. Pode beijar o asfalto e, pouco depois, levantar com felicidade, com o rosto sujo de terra e sacar uma garrafa da mão da primeira pessoa que passa pela rua. Move-se assim para viver.

Huston adorava lugares distantes, exóticos, regados a rodas de bebedeira. Francis de novo: “bebia como um gambá e fumava adoidado”. Adorava retratar os excessos, com gente perdida em terras distantes, apostadores e ambientes decadentes. São os locais que servem Geoffrey à perfeição em seu dia derradeiro.

Nota: ★★★★☆

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