A Piscina, de Jacques Deray

Apesar da piscina cristalina, da bela namorada, da grande casa, a vida de Jean-Paul (Alain Delon) parece não ter dado certo. Ele não encontrou o sucesso como escritor e está recluso em seu próprio paraíso, com a aparência de alguém feliz.

O protagonista aproveita alguns momentos com a namorada, Marianne (Romy Schneider). Quer estar mais com ela, à vontade, mas o telefone toca, mas a criada está por ali. Não há liberdade para ele: apesar de estar em seu domínio, não consegue encontrar seu jeito de ser.

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Para piorar, o telefonema era para ele ou para a amada, era seu velho melhor amigo, também o ex-namorado (ou apenas companheiro casual) da atual companheira.

O outro homem avisa que está para chegar, agora na companhia da filha de 18 anos – a bela moça silenciosa cuja existência, para o casal central, era desconhecida. A partir de então, A Piscina, de Jacques Deray, deixa evidente as peças do jogo.

Nada a estranhar quando o visitante, Harry (Maurice Ronet), tenta se aproximar de Marianne, ou quando Jean-Paul – verdadeiro impotente que talvez saiba lidar melhor com a juventude – deixa-se levar pelo olhar da garota, Pénélope (Jane Birkin).

Silenciosa e distante, ela é a única que parece se revelar: aqui, o terreno é o do mistério, terreno ao qual ela, em sua indefinição, mergulha com intensidade. É jovem, não tem opinião. Não sabia, pouco tempo antes, que tinha um pai, e agora vive a possibilidade de ter um amante.

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No cruzamento dessas personagens, Deray explora inúmeras possibilidades: todas parecem saber sobre todas, mas quase ninguém pode colocar tudo às claras. A piscina emite a representação possível: dá para ver tudo através de suas águas cristalinas, ainda que o reflexo, na abertura, apresente os pássaros e a árvore ao contrário.

Em A Piscina, o que parece evidente não é. Jean-Paul, com sua beleza e corpo escultural, é fraco; Marianne, com seu jeito fácil, será ainda capaz de se render à fragilidade do companheiro, à sua mentira, e se mostrará fiel.

O amigo Harry tem um carro moderno e potente. As características da máquina são citadas por ele quando Jean-Paul toma o volante, após um passeio. Marianne não deixa de mostrar seu encanto pelo veículo, enquanto Pénélope é indiferente.

Mais tarde, Harry traz alguns jovens àquela grande casa. Improvisa uma festa, dança, bebe – tudo como deveria ser aquele verão feliz, incluindo dois homens com violão, à beira da piscina. Harry flerta com Marianne, Jean-Paul com Pénélope.

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As trocas apenas confundem. Marianne continua amando Jean-Paul, que tem em Pénélope um canal para se sentir mais forte. Na menina, talvez não encontre nada, ou apenas o amargor dos jovens da época, à luz do Maio de 68.

O roteirista Jean-Claude Carrière diz, em entrevista, que Pénélope é a representação desse novo jovem, já deslocado do paraíso de Saint-Tropez – o cenário de E Deus Criou a Mulher, com o mito Brigitte Bardot. Não por acaso, ela sente-se deslocada durante aquela festa e, quando dança, parece automática.

No aeroporto, o olhar de Pénélope deixa a dúvida final: ela parece saber sobre a mentira do casal, o que está por trás da tragédia. Ao mesmo tempo, seu olhar é transparente e nada deixa ver, como as águas da piscina de Jean-Paul.

Nota: ★★★★☆

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