O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

O ministro dos Transportes da França não para um segundo sequer: seu cotidiano inclui andanças de carro a todo o momento, o celular ligado, os discursos nas mãos de assessores e algumas tragédias com as quais terá de lidar.

Talvez ele ainda acredite, ao longo de O Exercício do Poder, em uma política honesta: a certa altura, ao ser pressionado sobre a possível privatização dos terminais de trem, é enfático: “Eu não serei o homem das privatizações”.

o exercício do poder

Ele tem razão, pois há sempre outros caminhos, e no poder sempre há jeito para tudo. Algo precisa mudar para que tudo continue como sempre foi. O poder, diz o diretor Pierre Schoeller, resume-se à sequência inicial, ao pesadelo do ministro Bertrand Saint-Jean (Olivier Gourmet).

Uma bela mulher nua insinua-se ao crocodilo, com as garras abertas, pronto para engoli-la. Ao lado, algumas pessoas vestem preto, como inquisidores que conduzem o ritual.

O poder é o gesto de liberdade de seres com alguma paixão contra o monstro do Estado, enquanto são assistidos pelo verdadeiro mal – ao fundo, quase nos bastidores. Os condutores do jogo nem sempre aparecem.

E esses mesmos seres com alguma crença na liberdade, na mudança, deixar-se-ão engolir pelo monstro: o ministro, ao ser avisado de que as estações serão privatizadas, apenas concordará com a opção do presidente. Nada pode fazer.

"L'EXERCICE DE L'ETAT" UN FILM DE PIERRE SCHOELLER

O ministro acorda de seu sono no meio da noite. Logo, é avisado do acidente de um ônibus com crianças. Algo terrível. Veste seu terno e, sempre com a assessora, segue ao local do fato, para ver o sangue sobre a neve, uma obrigação.

Ora ou outra, desce do carro para vomitar, engasga, e não pode domar seus sentimentos e impressões – como o pesadelo que o consome por dentro, como se a verdade fosse revelada de outra forma. Seu discurso não passa de sussurro na igreja.

O poder contêm fraquezas, manobras, verbos intermináveis, clichês maquiados por gestos de bondade, pelas falas programadas – agendas cheias em carros em alta velocidade, com um ministro que tenta, em vão, encarar a multidão nervosa.

Ao fim, ele descobre ser não alguém para entrar para história como um guerreiro, mas o remédio que o presidente necessita: mais do que fazer história, ele estará posicionado para recuperar cinco pontos que a Administração prevê perder com as privatizações.

Un film de Pierre Schöller (France, 2011)

Esse homem que no fundo nada pode mudar é apenas alguém atrás desses números, a fazer algo grande do ponto de vista estratégico, pequeno demais para alguém que almeja ser lembrado, cujos desejos estão acima do dinheiro.

É alguém solitário, que a certa altura vai parar na casa de seu novo motorista, Martin Kuypers (Sylvain Deblé). Ao contrário do ministro, o outro homem parece não almejar nada senão sua vida comum, com a casa a terminar, com a mulher falante.

O diretor Schoeller, também autor do roteiro, oferece o outro lado do jogo: nesse meio de manobras políticas e velocidade, alguém não quer nada mais do que trabalhar, do que ter uma vida comum, com olhos de tristeza e indiferença – talvez por isso, segundo a impressão do ministro, alguém com real valor.

O acidente na nova estrada, utilizada pelo ministro para chegar mais rápido em seu compromisso, é apenas um exemplo corriqueiro de abuso de poder. Com sangue no rosto, por essa mesma estrada, o homem poderoso tem mais um sinal sobre sua fragilidade e certamente se questiona sobre quem deve viver e quem deve morrer.

Nota: ★★★★☆

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