Interiores, de Woody Allen

A luz de fora, no início de Interiores, não deixa ver o rosto da personagem que caminha no interior da casa. Ela está presa às memórias do local e volta ao passado ao olhar pela janela: relembra as brincadeiras com as irmãs, à beira-mar.

Como se vê, a fotografia de Gordon Willis nunca apostou tanto na escuridão. Essa escolha deixa o filme de Woody Allen ainda mais amargo, com mulheres – mãe e filhas – que vivem mudanças que não conseguem suportar. Logo no início, o pai avisa que vai embora, que precisa viver sozinho. Talvez se livrar delas.

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Cada personagem tem suas particularidades apresentadas em meio à mesma escuridão, lançadas aos poucos. A obra se deixa levar por cada pedaço do drama, cada partícula, e caminha naturalmente.

O título refere-se ao interior das casas, onde o controle de cada vaso, de cada mobília, dá-se em sentido oposto ao controle das personagens. Também, claro, refere-se ao interior das próprias pessoas em cena.

Allen coloca os objetos sem vida em contraponto aos seres que sofrem com a consciência da passagem do tempo. E, do lado de fora, expõe o mar inconstante, escuro como o céu, como se convidasse as personagens para o pior.

Cada uma delas, à sua maneira, vive sob o escurecer estranho, e talvez falte mais tempo para Allen explorar tanto, ou apenas para não deixar certo vazio.

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A mãe, Eve (Geraldine Page), está enlouquecendo e piora quando recebe a notícia de que o marido, Arthur (E.G. Marshall), vai embora. Apesar de estar ao centro do drama, ela não deixa saber quase nada sobre si: é pura emoção, com a intenção de se suicidar, como um fantasma que não se deixa notar no encerramento.

As filhas também têm seus problemas. Renata (Diane Keaton) é escritora e começa a sentir medo da morte. Ela parece ver na mãe seu reflexo. A certa altura, sentada na areia, olha para o mar com medo, antecipando a tragédia de Eve.

A outra irmã, Joey (Mary Beth Hurt), acusa a mãe de preferir Renata, sente-se frustrada profissionalmente e não aceita a relação do pai com outra mulher, Pearl (Maureen Stapleton). Por fim, há a terceira irmã, a atriz Flyn (Kristin Griffith).

Esse grupo feito de gente culta e fragilizada depara-se com a tranquila Pearl, alguém “comum” demais para as filhas de Arthur. Não por acaso, durante uma festa, enquanto dança, ela derruba um vaso, o que coloca em xeque o equilíbrio daquela família.

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Pearl não procura complicações para a vida: sua força está na simplicidade, na ausência de interpretação, na possibilidade de salvar alguém, ao fim, e ainda sair como a ironia do filme de Allen. Pessoas como Pearl são necessárias.

Nesse meio, ainda há espaço para a personagem de Richard Jordan, Frederick, escritor frustrado que atua como crítico, casado com Renata. Mais tarde, ele tenta fazer sexo como Flyn apenas para se sentir superior. Enxerga nela – em seu trabalho como atriz, em sua arte “menor” – alguém incapaz de confrontá-lo.

Essas personagens não aceitam mudanças: estão presas ao conforto do passado, da velha casa à beira-mar, de um universo que não inclui as danças e a roupa vermelha, extravagante, de Pearl. Não aceitam o fim do equilíbrio representado pela velha casa, pelas lembranças através da janela, em meio à escuridão.

(Interiors, Woody Allen, 1978)

Nota: ★★★★☆

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