Cinquenta Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson

No decorrer de Cinquenta Tons de Cinza, Christian Grey revela-se um super-herói. Ele mantém o jeito sedutor e distante de Bruce Wayne; depois, quando deseja fugir de sua rotina, leva a amada para voar sobre a cidade grande – como faz Super-Homem com Lois Lane. Para homens assim, o mundo precisa ver visto do alto.

Sem capa e superpoderes, o ricaço ainda guarda o tom sedutor, o de uma personagem escondida e com segredos. Afinal, por que esse homem gosta de sadomasoquismo?

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cinquenta tons de cinza

Nesse decorrer, a bela, virgem e ingênua Anastasia Steele (Dakota Johnson) tentará descobrir a chave do companheiro: a tal identidade secreta sob os tons de cinza, o que parece ter algo a mais, camadas em excesso, um possível enigma.

Ele oferece mais do que o mundo visto pelo alto: para Grey, esse espaço precisa de certo mistério, e o sexo não pode ser a experiência de sempre. Partindo desse ponto, a proposta de Cinquenta Tons de Cinza até parece interessante.

No entanto, o filme escorrega ao não ser mais do que uma simples história de amor. Seu sexo não é exatamente ousado. No cinema, alguns recursos mostram sem mostrar; algo comportado pode até parecer um pouco acima do tom e fingir ousadia. Mesmo as palmadas de Grey não oferecem algo a mais: ele faz tudo isso para sublinhar o poder, o papel dominador, e fica sempre ao canto, com o jeito perturbado e inconvincente do ator Jamie Dornan, belo mas vazio.

Pretende ser um super-herói do mundo “real”: basta um estalar de dedos para conseguir o que deseja, bastam alguns segundos para atravessar cidades e estar ao lado da menina amada. Ele não tem limites e, sem muita explicação, sempre sabe onde ela está.

Os filmes de super-herói tomam algo dos contos de fada. Cinquenta Tons de Cinza, o filme, também. Mas o faz com maquiagem, com a aparência de um universo de gente bonita, chique, de contratos cheios de cláusulas, de secretárias autômatas, de salas com pouca luz do sol, acinzentadas, sem rastros de sujeira.

Grey – o homem ao centro de um filme que almeja erotismo – é fruto dessas salas. Ele é limpo demais para um dominador sexual, e o filme reflete-o: é uma daquelas obras de sexo limpo de Hollywood, que agora embute o sadomasoquismo limpo.

Do outro lado, a menina oferece o oposto: enquanto Grey sabe de tudo, tem as respostas e aos poucos vai declinando (porque talvez a ame), ela quer descobrir. Guia os olhos do espectador – ainda mais, das espectadoras – ao reino fechado do bilionário com suas máquinas que salientam sua própria potência.

O desfecho é óbvio e comportado: esses seres podem com qualquer coisa – com chicotes, pancadas, salas secretas, olhos vendados –, menos com seus sentimentos. É o fraco dos super-heróis, vítimas do coração.

(Fifty Shades of Grey, Sam Taylor-Johnson, 2015)

Nota: ☆☆☆☆☆

Veja também:
Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars von Trier
Ninfomaníaca: Volume 2, de Lars von Trier

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