Sniper Americano, de Clint Eastwood

Os soldados tratam Chris Kyle como lenda. Em conflitos no Oriente Médio, após os atentados de 11 de setembro, ele teria matado mais de 100 inimigos. Esses números não assustam o próprio Kyle, que segue como sempre foi em Sniper Americano.

Suas reações dão a impressão de que o próprio não suporta o peso do heroísmo: na guerra, o que vale é cumprir seu dever. Do alto dos prédios, com sua arma voltada às vítimas e inimigos em potencial, Kyle executa seu trabalho com perfeição.

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Clint Eastwood, a partir do roteiro de Jason Hall, apoia-se nessa personagem que não deixa ser penetrada. Até o encerramento não é fácil entender o jovem caipira que sonhava em ser caubói e se transformou em atirador, vivido por Bradley Cooper.

Sua desculpa está sempre na defesa do país, o que torna o encerramento irônico: ao enviar homens para o outro lado do planeta, os Estados Unidos teriam produzido assassinos e seres descontrolados, viciados em guerra.

A impressão é que Kyle é produto da obsessão, de um treinamento, algo que passa pela religião e chega ao culto às armas: desde cedo, o pai fez questão de lhe dar um rifle para caçar, também uma Bíblia a ser colocada ao lado de seus soldadinhos de ferro.

O protagonista é feito à base desse material forte, e cresce dentro do esperado: bebe com o irmão em sua típica caminhonete, com as roupas de caubói, e ainda tem de encontrar sua companheira com outro homem após retornar de um rodeio.

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Esse mundo comum também guarda estranhezas: Kyle, na forma como Eastwood apresenta-o, será sempre produto do meio, dessas contradições, ao mesmo tempo o americano comum e reprovável, real, às vezes interessante, às vezes louco.

Como se vê nas sequências passadas na guerra ou em família, com mulher e filhos, ele alterna situações imprevisíveis com outras comuns, como se o soldado ideal não pudesse ser o pai de família esperado. Difícil habitar os dois mundos.

O filme de Eastwood é patriota sem ser tolo: não deixa se intoxicar pela bandeira ao apresentar uma guerra dura, com o homem certo mas problemático.

No começo, o diretor leva o espectador a uma situação extrema, quando Kyle depara-se com uma criança carregando uma bomba, a ser lançada contra os americanos. Essa desumanização a distância permite que os inimigos não sejam facilmente julgados.

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Ao contrário: na linha de frente estão sempre os americanos, para o bem ou não. Nessa mesma sequência inicial, ele não deixa saber sobre a escolha de Kyle e corta para o passado, para o protagonista quando criança, aprendendo a atirar com o pai.

Forma-se ali – no tiro, no corte, no som da bala que atravessa o tempo – o elo para Eastwood questionar se a formação do soldado é ou não anterior ao simples desejo de se alistar, à sua ida ao encontro da vocação.

O que se tem é a formação do americano fiel, defensor que não aceita ser a ovelha e tampouco o lobo. Nasceu, lembra o pai, para ser um cão pastor, para defender os outros, não se inclinar a ninguém. Sempre há conflito, enquanto a religiosidade passa pelo fundo – como em Menina de Ouro e Gran Torino.

O tiro da abertura leva direto ao passado: como se vê, Kyle será capaz de matar uma criança se necessário, e será capaz de torcer por outra, para que não seja morta.

Não dá para acusar o protagonista de desumano. Ao mostrar o que há de justo e ao mesmo tempo perverso nesse homem, o diretor também questiona o quanto é prematuro julgar o atirador pelo resultado de seu trabalho: a morte ou as vidas que salvou.

Nota: ★★★☆☆

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