Acima das Nuvens, de Olivier Assayas

A arte de interpretar talvez resista aos efeitos do tempo ao longo de Acima das Nuvens – ainda que este, para o diretor Olivier Assayas, seja quase sempre um aniquilador.

O drama surge com o retorno de uma atriz, agora mais velha, a uma antiga peça. Em cena está o confronto entre mulheres de diferentes idades, com suas próprias formas de encarar a realidade.

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Na peça à qual retorna, a atriz ao centro viveu a personagem mais jovem 20 anos antes. Convidada a voltar, terá agora de viver a mais velha – que, em cena, é destruída pela oponente jovem. Essa relação não é inédita nem no teatro nem no cinema.

Importa a Assayas a maneira como a peça invade a vida real, a vida da atriz veterana. Ao que parece, ela sente-se cada vez mais despregada da personagem jovem e próxima à mais velha. A explicação está na relação que mantém com a assistente, que lhe serve de amiga, assessora, ajudante, pronta para tudo.

A atriz é Maria Enders (Juliette Binoche). A assistente é Valentine (Kristen Stewart). A relação de ambas, às aparências, é normal, entre chefe e assessora. Relação de confidência, mas sem que tudo seja revelado. Fica a impressão de que Maria, sob o risco de ser dominada, não pode confessar detalhes de sua vida.

Assayas insere mais camadas nesse drama sobre a passagem do tempo, e fica a impressão de que o filme não avança. Na abertura, fica clara a dificuldade de comunicação, quando a assistente não consegue falar em seu celular, no interior do trem trepidante.

Universo oposto à tecnologia de celulares e computadores bem à tona no velho filme mostrado pela mulher do dramaturgo morto, o mestre de Maria. São imagens em preto e branco, nas montanhas que servem de refúgio, nas quais as nuvens parecem serpentes entre rochas.

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E à contramão da calmaria da natureza, a de Assayas, vê-se outro cinema, outro tempo: os filmes de super-heróis de Hollywood e as novas atrizes envolvidas em escândalos. O papel que Maria viveu há 20 anos fica com uma dessas estrelas de palavras afiadas, interpretada por Chloë Grace Moretz.

A primeira parte inclui a forma como Maria terá de lidar com a morte do dramaturgo; a segunda – com ela mudada, de cabelos curtos – mostra a aceitação do papel da mulher mais velha; e, ao fim, Assayas ainda entrega o epílogo, quando Maria parece entender definitivamente que os tempos mudaram. Melhor é se adaptar.

A atriz não deixa nunca de ser atriz, o que é revelador nas sequências em que ensaia o texto com Valentine. Não é possível saber até que ponto a peça transcende os limites do texto e chega à realidade. Talvez Maria ame Valentine tal como sua nova personagem ama a menina mais nova.

(Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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