Capra, instituição americana

Nos tempos de Frank Capra, o cinema americano não se importava em parecer bobo – ou, o mais certo, ingênuo. Para o diretor, o herói improvável é, na verdade, o mais provável de todos, como o James Stewart de A Mulher Faz Homem, de 1939.

Seu herói provável é o americano médio, às vezes o caipira que não sabe bem o que faz, e que termina por surpreender a todos.

Ao fundo de A Mulher Faz o Homem, com a paisagem de Washington, tudo vai mal. Como Jefferson Smith, Stewart vê a possibilidade de se tornar senador. Contra ele, tudo. A favor dele, muito pouco. Sua arma é a honestidade.

frank capra

Essa história aparentemente simples resume o espírito americano de Capra: o amor dos homens é sempre maior que o mal das instituições. E mesmo as personagens pouco inclinadas ao bem terminam se rendendo a ele, caso do inesquecível herói – sempre os heróis – de Aconteceu Naquela Noite.

É Clark Gable que ganha destaque, como o repórter Peter. Sem querer, ele envolve-se em uma viagem com uma moça rica que, na contramão das intenções do pai, deseja se casar. Não necessariamente com Peter.

Tudo muda, caem “as muralhas de Jericó”, e o sexo, um pouco tímido, aparece nessa bela representação, nas toalhas que dividem o quarto do hotel, entre os jovens amantes. Ao longo do filme, eles esforçam-se para se aturar. E se amam.

Em O Galante Mr. Deeds, Capra novamente retorna ao caipira, ao conquistador improvável. Um ano depois, em 1937, realiza Horizonte Perdido, sobre viajantes que terminam em uma cidade perdida, no Himalaia, chamada Shangri-lá (foto abaixo). Nesse ambiente, o tempo para, as pessoas não envelhecem.

horizonte perdido

Também chegado à comédia maluca, Capra fez o extraordinário Este Mundo é um Hospício, após retornar da Segunda Guerra Mundial. Foi ao conflito realizar alguns documentários. Depois, voltou à diversão: em cena, a personagem de Cary Grant está envolvida com as tias alegres, chegadas a matar velhos solitários.

O filme mais famoso do cineasta resume o amor pelo Natal, também pela vida. A Felicidade Não se Compra é sobre esperança, sobre um homem que descobre o mundo sem ele e suas ações.

Nesse caso, um Capra pós-guerra, com uma personagem anterior ao conflito, em um universo que já não dialogava mais com seu tempo. À época, a inocência estava em baixa, musicais já não tinham o mesmo peso, e a comédia ácida de diretores como Billy Wilder ganhavam espaço, além da presença do filme noir.

Aos poucos, encena-se a saída de Capra, cuja carreira teve início com um pouco de tudo, a partir de alguns trocados dos estúdios, para começar a entender as engrenagens aparentemente malucas do cinema. Lutou como bom americano e, mais tarde, levou seu herói às telas. Sem dúvida, olhava à bandeira com otimismo.

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