Super 8, de J.J. Abrams

A perda da mãe faz com que o mundo de Joe Lamb (Joel Courtney) fique um pouco mais bagunçado. De repente, sua pequena cidade é palco de um acidente estranho: homens do Exército param por ali, cheios de perguntas; de repente, enquanto tenta fazer um pequeno filme caseiro, o jovem vê-se apaixonado por Alice (Elle Fanning).

Aos poucos, ele percebe que crescer é também passar por cima de dramas passados, é assumir o protagonismo de sua vida, sua “direção”, e até mesmo encarar o grande monstro alienígena.

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O terreno de Super 8 é o dos anos 80, ou quase: jovens ainda na era analógica, com suas bicicletas surradas, com suas imaginações a mil – ainda distantes dos computadores e pequenos objetos que mais controlam do que libertam.

Para J.J. Abrams, fazer um filme sobre o cinema é retornar à infância, ou à passagem à adolescência: o cinema feito aqui é visto pelo olhar infantil, ao passo que reproduz, por isso mesmo, um universo quase sempre indolor.

É o mesmo universo aberto, nos anos 70 e 80, por Spielberg e Lucas, por uma geração que resolveu retornar ao efeito “pipoca” das matinês – devolver ao cinema sua posição de entretenimento, sem deixar de conferir a ele o caráter de arte.

Pode não se ver tanta arte no trabalho de Abrams. Ou é válido argumentar que ele esteja mais preocupado em divertir, ou infantilizar. É necessário cuidado: desde os primeiros instantes, com a sequência da grande placa que indica os dias sem acidentes de trabalho na empresa, vê-se um filme sobre o flerte com o mundo adulto.

Joe, na sequência seguinte, está fora de sua casa, no dia da morte de sua mãe, justamente fora do meio que o levaria facilmente à dor: ele vive seu luto em dias de inverno, enquanto um homem estranho bate à porta da família e é expulso.

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À frente, o espectador descobrirá quem é esse homem e como nada será por acaso nesse trabalho divertido e original. Nem mesmo o pequeno filme feito pelos jovens, entre eles Joe – e muito menos esse filme feito em formato super 8.

É por causa de sua realização, na noite em que os jovens filmam em uma estação de trem, que tudo tem início. Sem querer, eles presenciam – e filmam – um acidente. Não por acaso, o fato ocorre após a câmera ser ligada, após ter início a encenação entre jovens – como no local em que o cinema nasceu, há mais de um século, em A Chegada do Trem à Estação.

O feito da câmera é levar os jovens ao sonho: materializa o mundo visto por Abrams nos anos 80, no cinema. Há nele o Exército controlador, os homens mais velhos e malvados, o pai distante que precisa provar coragem, a menina por quem não é difícil se apaixonar – e, claro, a dor do filho que está crescendo.

Os ingredientes são conhecidos mas misturados: Joe tem aquele desejo de descoberta, de seguir em frente custe o que custar. Como em outros filmes do tipo, cuja inocência age a favor do herói, as crianças sempre sabem mais que os adultos.

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Nunca levado a sério, sempre na posição de criança, Joe tem as respostas. É a chave e o coração do trabalho de Abrams, seu próprio espelho.

O mais cínico deverá argumentar que o filme não traz novidades. Por outro lado, nem sempre se vê uma obra com tanta paixão – enquanto, para quem quiser ver, uma homenagem ao cinema.

Volta-se ao olhar ingênuo da sétima arte, quando alienígenas eram incompreendidos, nem sempre malvados, de passagem e perseguidos pelos homens mais velhos, os humanos. A comparação com E.T. – O Extraterrestre é irresistível.

A descoberta desse universo fantástico passa pela pequena câmera, passa pelo olho de Joe e de seus amigos: esse cinema nada mais é do que um gesto infantil, o que justifica os degraus da história, também o mundo mágico que brota da pequena câmera ligada.

Nota: ★★★☆☆

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