Dilemas de vida e arte

Em dois filmes recentes, Juliette Binoche interpreta mulheres com dilemas envolvendo vida e arte. Elas encaram o drama da mudança, com tudo aparentemente bagunçado, em confronto com o trabalho, a família e os amores.

O primeiro, de 2013, é Mil Vezes Boa Noite, de Erik Poppe, no qual ela vive a fotógrafa Rebecca, enviada para locais distantes, zonas de guerra, os piores ambientes para se viver. Nesse meio hostil, a mulher busca a beleza em meio à tragédia.

mil vezes boa noite

A arte, ela sabe bem, tem essa dualidade: a mesma foto que parece inspirar também serve de alerta, choca. Ainda no começo, ela capta a face de uma mulher-bomba enquanto é preparada para um ataque terrorista. Rebecca acompanha todos os passos dessa suposta mártir, enrolada em explosivos e em religiosidade cega.

Ela sofre, tenta não se envolver: entende (ou parece entender) o ponto em que termina o profissionalismo e começa o humano e suas emoções. Ela não resiste: grita e, a certa altura, tenta avisar as autoridades sobre a bomba que deverá explodir.

É apenas o começo desse belo filme. Seu aviso e desespero têm explicação: antes de a bomba ser detonada, Rebecca observava crianças brincando perto do local.

Longe da ali, em algum país frio e seguro, ela tem família, marido, tem a companhia que toda mulher de sua idade – fosse ela outra mulher – gostaria de ter: pessoas que vivem vidas felizes, às vezes desconectadas dos problemas do mundo.

Se a família oferece o clima frio, como a direção de fotografia não deixa esconder, as zonas de guerra levam sempre ao calor: o outro mundo que tanto excita a personagem.

acima das nuvens

De volta à família após quase morrer em uma explosão, Rebecca tem de conviver com o difícil dilema de ser duas mulheres em uma, e talvez não possa ser as duas ao mesmo tempo. A família cobra-lhe presença, não suporta mais seu trabalho. As filhas têm medo que ela morra, o marido ameaça deixá-la.

Ao longo do filme, importa mais o drama preso a Rebecca, a forma como ela relaciona-se com sua arte, com as fotos que vê no computador, como finge felicidade – longe do trabalho – enquanto sorri nos belos jantares patrocinados pelos amigos do marido (Nikolaj Coster-Waldau). Ou como se distancia das coisas que ama.

Em suma, sob o corpo de Rebecca brota a rachadura que impõe dois mundos. O mesmo ocorrerá, de maneira um pouco diferente, com a protagonista do também belo Acima das Nuvens, dirigido por Olivier Assayas.

Binoche é a protagonista do longa, Maria, atriz que confronta seu passado a partir de sua arte. Mulher experiente, ela voltará a trabalhar na mesma peça que lançou sua carreira, anos antes. A diferença é que, dessa vez, não interpretará a personagem mais jovem e dominadora, mas sim a mais velha e dominada.

Peça sobre o universo feminino em um filme sobre este: forma como Assayas faz emergir a atriz e seus questionamentos, como se estivesse cada vez mais frágil e em dúvida à medida que envelhece e parece mais experiente.

acima das nuvens2

Terreno para questionar o quanto a verdade pode ser revelada por meio da interpretação e o quanto o universo das estrelas parece fascinante apesar de doentio.

A atriz escalada para viver o papel que antes foi de Maria é a jovem estrela Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), das primeiras fileiras de Hollywood e preferida dos paparazzi. Por alguma questão inexplicável, a jovem causa atração na protagonista.

Sua assistente, Valentine (Kristen Stewart), também gera atração. Mais do que ações, o filme prefere o que fica oculto. É Valentine a confidente de Maria, com quem ela lê suas falas, quem ouve suas reclamações – também quem dá à atriz as piores notícias.

É seu contato com a realidade, com a futilidade, com qualquer besteira cotidiana que parece ser o que é (besteira) e faz sua vida melhor.

Para essas mulheres, fotógrafa e atriz, mergulhar na própria arte tem seu preço: elas revelam-se sem perceber, são vítimas de seus próprios desejos, ao passo que Binoche sabe como parecer, em poucos segundos, a mais segura e a mais frágil de todas. Não deseja ser qualquer mulher fácil e definida. São filmes sobre mulheres sem rótulos, mergulhadas em problemas pessoais e, ora ou outra, abandonadas.

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