Interlúdio, de Alfred Hitchcock

Enquanto Cary Grant tem todas as repostas, todas as certezas, Ingrid Bergman é pura inexatidão em Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Ele é o agente do lado certo, de terno impecável, que não se abala com a bebida e tampouco com o jeito irresistível dela.

Como Alicia, Bergman surge descontrolada, perdida: é a forma que Hitchcock encontrou, a partir do texto de Ben Hecht, para convencer o espectador de que a dama não é uma traidora. Os vilões nazistas não mostravam tamanha inconstância.

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Ao contrário, eles parecem ter certeza de tudo, menos de que ela – filha de um nazista condenado à prisão no início do filme – poderia estar ao lado de heróis como Grant.

O filme passa-se em um Brasil de mentira, todo feito em estúdios, e tem talvez o beijo mais famoso da história do cinema – ao lado daquele de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol, lançado anos depois.

É para a América Latina que Alicia vai, na companhia de Devlin (Grant). Ao questionar por que ela deveria aceitar a proposta de se infiltrar entre os nazistas, o herói pacato tem a resposta certeira: “patriotismo”. Poderia soar exagerado, afinal ela terá de ir longe demais para descobrir a verdade, inclusive casar com o vilão.

Por outro lado, o roteiro de Hecht leva em conta o calor da época, pouco após a Segunda Guerra, momento em que os crimes nazistas ganhavam clareza e repercutiam mundo afora. Os vilões estavam espalhados pelo mundo.

E se o filme parece ser sobre essa garota que se entrega, surge outro engano: ele é também sobre o agente apaixonado que sofre ao vê-la cumprir a missão. Vive esse dilema: para livrar o mundo do mal nazista, deve entregar a mulher que acabou de conhecer, a garota descontrolada, amorosa, por quem se apaixonou.

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Em entrevista a Peter Bogdanovich, Hitchcock define a obra: “O velho tema do amor e do dever”. E continua: “A tarefa de Grant é fazer com que Bergman vá para a cama com Rains, o outro homem”. Fala de Claude Rains, que vive o nazista Alexander Sebastian, cuja mãe sempre está ao lado, vigilante, vivida por Leopoldine Konstantin.

O roteiro de Hecht deixa para Hitchcock a possibilidade de esculpir um mundo feito de proximidade: a do beijo, a dos olhares, a da desconfiança, a do medo. O controle do diretor é extremo, sempre mostrando com a câmera as mudanças das personagens, sem abusar das palavras, como o momento em que Devlin é observado de cabeça para baixo, quando a câmera inverte a imagem. Ela passa a vê-lo de outra forma.

Por outro lado, essa proximidade nem sempre é definida com certezas: quanto mais perto desses espiões e agentes – em festas, em cavalgadas ou em restaurantes caros –, menos é possível saber algo sobre todos.

Vestem-se com o melhor figurino e fingem a felicidade do pós-guerra, como se ainda fosse possível rir, aliviar-se com paz – enquanto, ao fundo, os planos são arquitetados sem maquiagem. O urânio, por exemplo, está escondido justamente no interior das bebidas que regam as festas de Alicia e Alexander.

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Ao casar com o vilão, ela entrega-se a essa proximidade: rompe o que antes a separava do mal. Da garota tomada pela bebedeira à mulher apaixonada, Alicia tem de interpretar um papel para ser justamente Alicia: a filha de um nazista condenado.

Tal papel é o que esperam dela, nem menos ou mais. Devlin, por outro lado, quase não deixa ver seus sentimentos, e quase nunca faz outro papel além do dele – quase nunca deixa de ser Cary Grant. Sua segurança está em sua gênese: é sua sofisticação que faz com que seja sempre o mesmo homem, apaixonado ou não.

Interlúdio explica-se pelo olhar de Alicia: se é ela – como o expectador – que não tem todas as certezas, suas descobertas – expressas pelas reações, pela face – apontam o caminho ao espectador. Em sua inconstância, ela tem curiosidades, enxerga o mal: está sempre descobrindo e, por isso, é a alma desse filme extraordinário.

Em suma, ela descobre o que Devlin e os outros parecem ter vivido. Ela torna-se a vítima perfeita, encurralada por mãe e filho assassinos, pelos homens em suas reuniões, pelas portas, venenos e todas as tramas de um mundo confuso. Não é o lugar mais esperado para tal história de amor.

Nota: ★★★★★

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