Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Desviar da crítica ao sistema é impossível em Dois Dias, Uma Noite. Grandes filmes conseguem isso sem apelação, a partir das necessidades das personagens, com o movimento do corpo, em situações nas quais o tempo é o vilão.

No filme anterior dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, O Garoto da Bicicleta, uma criança tem sua bicicleta roubada e consegue recuperá-la não sem evitar o conflito, a certa altura da obra. Em Dois Dias, Uma Noite, a protagonista precisa bater de porta em porta, próxima à humilhação, para recuperar seu emprego.

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Ambas as obras fazem pensar em Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica: a história de um pai em busca de sua bicicleta, de seu emprego – resumo certeiro do desespero humano sem perder de vista a questão social, os problemas do sistema, com suas regras. Desnecessário dizer o que parece recorrente: trata-se de um grande filme.

Os irmãos belgas mostram, em Dois Dias, Uma Noite, como esse mesmo sistema – o mundo moderno, o capitalismo, ou como se queira chamá-lo – lança suas bases contra o humanismo, ainda que não possa derrotá-lo. É uma luta a ser travada: de um lado a mulher frágil, doente; do outro esse mesmo sistema que não se vê, preso às atitudes dos outros, às regras, aos absurdos do cotidiano comum, tratados como normais.

Ela é Sandra (Marion Cotillard), em busca de seus amigos de trabalho durante um filme de semana. Ela precisa convencê-los a votar a seu favor, contra um bônus dado pela empresa caso ela seja demitida. São tempos de crise: a empresa não poderá premiar os funcionários e, ao mesmo tempo, mantê-la em seu cargo.

Sandra briga contra as regras, contra as ideias. Briga dura, às vezes injusta, e como ela lembrará, ao fim, uma disputa (talvez) boa para se travar. Para essa mulher incansável (ou quase), entenderá o espectador, mais valem os meios, menos os fins.

Sua passagem de casa em casa, pelos apertos, pelas portas (sem atravessá-las), permite que se veja mais do que se imagina: tudo é entregue sem que nada se saiba sobre essas pessoas, algo recorrente na filmografia dos irmãos Dardenne.

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Quem é Rosetta, a menina que faz de tudo para manter seu emprego, no filme de 1999? Ou mesmo o jovem que matou outro, em O Filho? Os Dardenne ficam de fora, mas sem perder o humanismo; aproximam a câmera enquanto mantêm distância, sem julgar as personagens.

Se Rosetta era viciada em seu trabalho, ou na necessidade de tê-lo, Sandra deseja apenas que este seja mantido em nome do que tem: sua casa, sua família, seu espaço construído com suor. Não precisa ser dito: já está tudo ali, entregue, inscrito.

No início, Sandra acorda com o toque do celular. Recebe o aviso de que perdeu o emprego. Sofre, toma remédios, segura o ar e depois solta, sempre apoiada pelo marido (Fabrizio Rongione), que a aconselha a continuar, uma força e um mal.

A certa altura, o espectador entende: Sandra não pode parar. É seu duelo, sua vida, resumida em algumas horas, em instantes em que resolve desistir e em outros que decide seguir em frente – aos goles de água, às lágrimas, às quedas e suspiros.

Diferente dos protagonistas de A Promessa, Rosetta e A Criança, Sandra não é alienada. Sua busca revela necessidades, desespero, a forma como volta a si mesma, como se deixa levar pelo barulho do mundo, de porta em porta, nessa Europa fraturada e de gente como ela: pessoas simples, vítimas do sistema.

Nota: ★★★★☆

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