4:44 – O Fim do Mundo, de Abel Ferrara

A ideia do fim do mundo tem gerado filmes variados. Nem todos são diretos, ou sobre relações passadas em quatro paredes. Para o diretor Abel Ferrara, o fim não precisa de pessoas correndo para sobreviver, prédios em cacos. Importa mais o que parece menor: um homem e uma mulher juntos, sozinhos, em um apartamento.

Com 4:44 – O Fim do Mundo, Ferrara propõe o fim da raça humana a partir do olhar individual: o mundo vai acabar e todos sabem disso. O mundo chegou ao fim nas palavras do apresentador de televisão, que, mesmo em momento tão complicado, continua a ser o que manda sua personagem, em mesmo tom.

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Nesse meio, Ferrara diz ao espectador que as pessoas, próximas ao fim, talvez revelem quem realmente são. O desespero acompanha verdade.

O homem assume sua fuga, sua vontade de falar com a filha, com a ex-mulher, a vontade de usar drogas. O amigo, a certa altura, é sincero: as pessoas estão morrendo desde o dia em que chegaram ao mundo.

Apoiar-se na religião, apenas, parece não ser o suficiente. Naquele apartamento grande, sem muitas paredes, o óbvio expõe-se: o mundo que chega ao fim, nesses espaços, aproxima a arte à tecnologia, a espiritualidade à carne.

Fora, no terraço, vê-se apenas o retrato daquela civilização: prédios, luzes, marcas em lojas, carros por todos os lados. O mundo como é, o mesmo que – com suas sombras, com seu medo – cercava as personagens de Maria, obra anterior do diretor.

Não se sabe muito sobre o casal. Ele, Cisco (Willem Dafoe), é um ator. Ela, Skye (Shanyn Leigh), é artista plástica. Horas antes do fim, tentam levar a vida como sempre foi, ainda que seja difícil esconder o incômodo dentro daquelas paredes.

Não demora muito para ele transcender os limites do espaço, não apenas por meio da tecnologia. Quando briga com Skye, decide ir à rua, na casa de amigos, que celebram o fim com bebida e drogas. Chegou a hora de fazer o que desejam, sem limites.

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Mas Cisco ainda está um pouco perdido, sem rumo. Ao ver um homem suicidar-se, em um prédio ao lado, ele não esconde a perturbação. Alguns não aguentaram esperar o fim anunciado, calculado em seus minutos – com a imagem do céu verde, o vidro que se quebra, ou o simples branco que contraria, ao fim, a escuridão esperada. O branco tem lá sua incerteza: pode ser qualquer coisa, a salvação ou o simples encerramento.

O fim do mundo é a parte seguinte de Ferrara às questões que inquietam a raça humana, após a espiritualidade em Maria e a violência em Napoli, Napoli, Napoli. Esse fim tem seu lado curioso: as pessoas tentam ser indiferentes a ele e são vítimas do medo.

No encerramento, Cisco é preso aos braços da mulher, acolhido como uma criança indefesa. Pouco antes, ela desejou engravidar, ali, próxima ao fim. As palavras do amigo ecoam entre eles: algo começa a morrer justamente quando é concebido.

(4:44 Last Day on Earth, Abel Ferrara, 2011)

Nota: ★★★☆☆

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