S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, de Rithy Panh

Um grupo de homens ainda continua nas salas sujas, vazias, nas quais outros homens e mulheres foram torturados e mortos. Esses carrascos continuam atrás de um papel inesquecível: eles são torturadores e aceitam reviver suas crueldades, ou apenas o trabalho. Andam de um lado para outro, dão ordens, vivem o vazio.

Ao pedir que façam tudo de novo, no drama dos torturados e torturadores do Camboja sob o domínio do Khmer Vermelho, o diretor Rithy Panh vai direto à memória. É o que dá força ao documentário S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho.

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Resta ao espectador reconstruir as partes que faltam àquele espaço: as pessoas enfileiradas, como gado, rumo à morte; os torturadores pelos corredores, não meramente interpretando, mas em suas funções, e dispostos a matar os outros.

O espaço, assim, tem grande importância no documentário de Panh. Confere a ideia de preenchimento, o poder da memória, também o da imaginação.

É um pedido de completude, sobretudo, semelhante ao de Lanzmann em seu magnífico Shoah, sobre os campos de extermínio na Polônia. O terror, diz Panh, está na reconstrução, na interpretação, não necessariamente em mostrar o terror.

Começa com declarações das vítimas, com a tentativa de compreensão. Há lamentos demais. Aqueles que falam – por motivos que não procuram entender – sobreviveram. Ou ficaram para contar essa história.

Não demora nada para retornarem ao S21 indicado pelo título, o grande prédio em que os torturados eram submetidos às mais diferentes atrocidades, local em que a encenação é necessária para se viver. Para continuar, os carrascos evocam lembranças.

E esse é o ponto mais interessante do documentário: o resgate dos homens que mataram e defenderam a ação do Khmer, e que continuam vivos e dispostos a contar tudo.

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Diferente de Lanzmann, Panh sequer precisa esconder a câmera. Esses carrascos – vazios e aparentemente inocentes, peças daquela grande máquina de matar – ainda agem como homens de ação, não de pensamento. São o que o sistema desejava: soldados que apenas cumpriam ordens, nada mais do que isso.

O terror é então apresentado: esses homens eram privados de pensar. A máquina toma forma, enquanto eles movimentam-se pelos corredores, pelas salas cheias de poeira, por aquele vazio que pode remeter a qualquer coisa, exceto ao esquecimento.

Panh não deseja falar do extermínio, mas da memória. Sim, o extermínio é o combustível a esse resgate. Histórias brotam a todo o momento. Relatos do tratamento, sobre como prisioneiros dormiam e comiam, como eram transportados, onde estavam presos. Mulheres eram estupradas, separadas de seus filhos.

Em todo o Camboja, fala-se em dois milhões de mortos. E Panh, tão preciso, deseja apenas deixar aqueles homens em seus espaços, em busca do preenchimento, da lembrança. Os fantasmas ainda perseguem a todos, inclusive os carrascos.

Ainda no início, um sobrevivente da tortura conta parte de sua história. Ele é um pintor. Não sabe dizer – como qualquer outro – por que sobreviveu. Ele continua a pintar. Suas imagens reproduzem o que ele não viu: certa vez, no passado, esse homem foi levado de olhos vendados, com outros, a uma sala do S21.

Foi preso, e por ali ficou por algum tempo. Na pintura, os homens são mostrados de olhos vendados. A arte é a forma de preenchimento, maneira de fazer ver – e não esquecer – as atrocidades do Khmer Vermelho.

Nota: ★★★☆☆

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