Tim Maia, de Mauro Lima

Cada Tim Maia em cena representa um tipo e um universo diferentes. O primeiro é o jovem de um mundo de sonhos, de olho na capa dos discos de vinil, que não acredita na morte do rock, anunciada com a morte de alguns grandes músicos.

O segundo, mais interessante, joga o espectador de Tim Maia, de Mauro Lima, na dura realidade de boa parte dos homens da noite: confusões, mulheres interesseiras, gente interesseira (sobretudo) e, não poderia faltar, drogas à vontade.

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É como se ao mundo, e não apenas ao mundo da música, não houvesse esperanças: sempre pode ficar pior. Se os excessos, a certa altura, colocam o genial Tim Maia em rota de colisão com a morte, a busca pela religiosidade pode retirá-lo do mal. Mas, como tudo, é apenas uma fase, antes de chegar o pior.

Nesse meio, céu e inferno tocam-se rapidamente. Tim, grande e desbocado, poderia ser um demônio mulato em um filme de Glauber Rocha; a bela Janaína (Alinne Moraes) poderia ser, enquanto contorce-se pelos jovens cantores em programas de auditório, a menina de um musical inocente, ou de comédias sem compromisso.

No caldeirão que é Tim Maia, tudo se mistura. E não faltam exemplos: da Tijuca, o filme passa aos Estados Unidos, depois a São Paulo, mais tarde à Inglaterra. Música negra esbarra nas canções de Roberto Carlos, e este deixa aqui seu jeito moleque, o sorriso falso, o astro montado – e lustrado – da cabeça aos pés.

O filme de Mauro Lima não escapa à fórmula comum a tantas filmografias recentes. Oferece a descoberta do talento, com o olhar virgem do jovem artista. Depois, oferece a podridão do mesmo homem, vítima dos excessos. Nem sempre é possível reconhecer os “diferentes” na mesma pessoa.

O primeiro Tim é vivido por Robson Nunes e o segundo, por Babu Santana. O primeiro vai em frente, tenta, cai, volta, não desiste nunca. O segundo, após descobrir sua grandeza e ser chamado de gênio, deixa-se levar: segue a onda das drogas, das festas, dos amigos. Ambos fazem bonito, sobretudo o segundo.

Se o primeiro parece se importar, o segundo dá de ombros ao mundo. Como se aquela fosse sua resposta: ao se tornar famoso, ao provar ser o gênio que é, não precisa de mais ninguém – e não se preocupa em procurar Roberto Carlos novamente.

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O sucesso leva-o a Janaína. Antes desconhecido, ele apenas gerava repulsa na moça. Depois, com o sucesso e os discos vendidos, ganha sua atenção. Janaína é um daqueles anjos malvados pelos quais os homens deixam a inteligência de lado. Esquecem tudo. Gastam dinheiro com elas, compram carros para agradá-las.

A certa altura, a moça surge grávida. Sem saber quem é o pai, Tim prefere a dúvida: assume a paternidade, o que garante a Janaína a boa vida. Aos trancos, com gestos inesperados, Tim comprova que – seja pelo talento, seja pelas atitudes – sempre foi alguém fora do eixo, imprevisível.

Ainda no início, quando o personagem-título recebe visitas no camarim, o filme de Mauro Lima antecipa a história de um excluído. À base de suas máximas sempre, Tim é deslocado, vagando de uma pessoa a outra, sem parar, sem encontrar um ponto fixo.

Os velhos companheiros, tal como Janaína e outras mulheres, e os outros intrusos, sem rosto e sem muito a dizer, são como fantasmas que rondam sua vida.

Se com Robson Nunes havia alguma chance de o espectador sentir empatia, com Babu Santana isso não ocorre. Tal transformação – ainda que radical – é um dos méritos do filme de Mauro Lima, realizador de Meu Nome Não é Johnny, sobre um jovem de classe média que se torna traficante, outro filme sobre excessos.

O ponto baixo da obra começa com a narração do companheiro e talvez melhor amigo, que pretende explicar muito, forçar o olhar do público e entregar de bandeja o mito antes do homem. Tenta explicar o óbvio, como se fosse necessário indicar ao público que existe um gênio vivo dentro do ogro evidente.

Nota: ★★☆☆☆

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