A Hora da Zona Morta, de David Cronenberg

Foi preciso se aproximar da morte, apagado por anos, para que Johnny Smith descobrisse o quanto é difícil viver quando se sabe muito, quando se tem grandes poderes. No seu caso, ele pôde ver o que há por traz da morte, prever quando ocorrerá. Chega ao sofrimento: questiona-se por que pode invadir a tal zona morta.

Fica assim após um acidente, depois de se despedir da mulher que ama, sob a chuva: seu carro, naquela mesma noite, colide-se com um caminhão. Tudo é um pouco rápido: ele é hospitalizado, fica em coma por cinco anos e depois retorna a um novo mundo.

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Em A Hora da Zona Morta, esse homem não sabe muito sobre o que ocorre, mas sabe mais sobre a natureza humana do que antes. Vive estranha ironia: teve de sobreviver para encontrar a morte – outras mortes que podem se concretizar ou não.

O diretor David Cronenberg não chega à ousadia outras vezes observada em sua carreira. Prefere um filme mais próximo do cinemão americano, ainda que deixe, em mais de um momento, sua marca – com seres estranhos, alguns exageros.

A monstruosidade, aqui, é mais interna: passa pelo protagonista, depois pelo desejo dos outros (da mídia, da polícia), mais tarde por um político ambicioso.

Após acordar, Smith descobre que uma menina – em algum lugar não tão longe dali – pode morrer em um incêndio. Tem essa iluminação ao tocar a mãe da vítima, enfermeira do mesmo hospital em que está.

Seus poderes paranormais aparecem quando ele entra em contato com alguém ligado à vítima, ou com a mesma. Prevê o futuro, também vê o passado. É condenado a viver essa estranha situação, de um poder inexplicável, adquirido por motivos que ele sequer imagina – o que não será revelado pelo filme.

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Tem dúvidas: deverá utilizar os poderes para descobrir o mal e até resolver crimes ou simplesmente deixar que a vida siga seu curso? Ele entende que, nesse mundo desconhecido, de atitudes inesperadas, melhor é interceder: terá de lutar como um herói, como alguém condenado a saber mais.

A questão esbarra na política, no candidato desonesto, forjado à propaganda: o homem cuja imagem pintada, tal como a imagem do palanque e da televisão, faz pensar no trabalhador incansável, na honestidade em carne e osso. Os monstros são descortinados ao passo que tocam Smith, quando estendem as mãos.

Difícil imaginar outro ator na pele do protagonista. Christopher Walken cabe bem no papel do professor, do herói por acaso e desorientado. Tem aquele olhar único que o aproxima de Ray Milland, no incrível Quando Desceram as Trevas.

Nesse filme de Fritz Lang, um homem fica internado algum tempo em um hospital psiquiátrico e, ao ser libertado, depara-se com a Segunda Guerra Mundial e, de quebra, é tragado às incertezas, às desconfianças que cercam aquele mesmo tempo: é confundindo com outro homem e perseguido por vilões.

É o problema, também, do Smith de Walken, ao ser levado a um universo que recusa, nem sempre podendo escolher novos caminhos. O protagonista é confundido com a personagem que todos desejam, mas que ele próprio terá de evitar: alguém que pode – para o bem de alguns, mas não de todos – dizer como será o dia seguinte. Para os outros, ele tem a resposta certa: a morte não excluirá ninguém, agora ou depois.

Nota: ★★★☆☆

2 comentários

  1. Que bom ler esta crítica aqui! Eu tentei ver este filme há muito tempo, era criança e fiquei com medo do personagem do Christopher Walken, não consegui assistir até o fim. O medo, mantive por muitos anos, talvez até hoje. Apaguei da minha memória a estória do filme e nunca pensei em revê-lo. Mas este texto acaba de mudar minha opinião!

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