Violette, de Martin Provost

De Violette Leduc, Simone de Beauvoir deseja as palavras, a emoção, a força feminina – o oposto do que deseja a personagem-título: o amor carnal. No filme de Martin Provost, essas mulheres seguem caminhos opostos, o que não atrapalha a relação entre ambas. Tentam se entender apesar de suas diferenças.

Talvez Beauvoir tenha razão em meio a tantas idas e vindas: as palavras são mais importantes e duradouras. Elas traduzem o que há de importante, ao contrário do amor que parece tornar as pessoas mais fracas ou cegas. Certa ou errada, resta ao público a emoção de Violette, frente à distância, à frieza de Beauvoir.

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Em Violette, essa emoção e dor confrontam o mundo frio durante a Primeira Guerra Mundial, depois nos tempos de transformações entre guerras, na Segunda Mundial, no pós-guerra, até chegar aos anos 60, quando explodia liberdade, quando o feminismo virava moda. Momento que tais escritoras tinham mais força.

Enquanto a protagonista veste roupas com cores fortes, a outra se esconde em trajes escuros. Uma com o cabelo solto, a outra com o cabelo preso. Cada uma com seu semblante característico; uma com lágrimas, a outra de face seca.

O drama de Violette é ser sempre rejeitada pelos outros: primeiro pela mãe, durante a gravidez; depois pelo marido gay, que a abandona; mais tarde pela amiga Beauvoir. Ao fim, quando encontra um homem estranho e também frio, o espectador chega a pensar em tragédia, mas se trata apenas de sexo passageiro.

Violette é vivida por Emmanuelle Devos, cujos lábios trêmulos geram certa antipatia. Não parece ser a mulher forte que é, e às vezes parece uma fingidora. As palavras, para ela, servem de refúgio: o canal para explorar o que ela não é, ou mesmo para se vingar dos outros com doses de intimismo. É sua arma para se aproximar de todos, pois não tem as companhias que tanto deseja.

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Dividido em capítulos, o filme de Provost aborda a liberdade das escritoras sem cair em exagero. É natural, livre. Sua protagonista é vítima de suas próprias prisões, de seus medos. Isso se traduz em imobilidade. Na verdade, é a natureza – de raízes assimétricas, de formas nem sempre definidas – que ajudam a defini-la.

O caminho, afirma Provost, não pode ser regular. É necessário que haja dificuldades, trancos, quedas, a começar pela cena de perseguição da abertura, em um bosque escuro. As imagens salientam a confusão, a dificuldade de se encontrar um lugar.

Se os embates verbais ajudam a manter certo interesse, nem sempre os caminhos de Violette fazem o mesmo. Fica a impressão de um círculo sem saída, universo labiríntico, de uma mulher perdida. O encerramento não deixa mentir: ela está sozinha, ao entardecer, a distância (e não se trata de grande revelação).

Quem vive Beauvoir é Sandrine Kiberlain. Sua indiferença carrega fúria: ela deseja distância de tudo e de todos, e curiosamente sempre tem alguém ao lado. Ela tem seu caminho definido, seus planos, seus mapas. Sua força paira aos cantos, de passagem, enquanto a fraqueza é legada a Violette, com lágrimas e indecisões.

Nota: ★★★☆☆

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