O Protetor, de Antoine Fuqua

Como Robert McCall, Denzel Washington lembra o espectador como se faz um mundo melhor: com menos policiais corruptos, mafiosos mortos e pessoas de bem, como seu melhor (e talvez único) amigo, um segurança de origem hispânica.

Ao mesmo tempo, em O Protetor, os imigrantes são o começo e o fim dessa história, o bem e o mal: são os russos assassinos, que aliciam mulheres para vender seus corpos, e também os espanhóis que, nos Estados Unidos, lutam para ter uma vida melhor.

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Se um imigrante é o problema, o outro é o oposto: merece ficar por ali. E McCall é o herói escondido, o falso homem comum, que vem lembrar o público sobre tudo isso – com socos e mortes, àquele modo cinematográfico americano em que o protagonista é quase obrigado a matar. Ele não aguenta tanto mal.

No mundo melhor almejado por McCall, não se pode viver enquanto garotas inocentes levam a pior. Seus problemas – e a faxina que leva à frente – começa assim: com uma simples amizade, certa noite, em uma lanchonete amigável.

A menina Teri (Chloë Grace Moretz) puxa conversa após ver o livro que ele lê, O Velho e o Mar. A obra não passa por ali à toa. É sobre o próprio McCall, sobre um homem que precisa testar a si próprio. Só não é necessário explicar isso, como o próprio protagonista faz em seguida, mastigando ao espectador.

Nasce entre eles um laço: ele vê nela mais que uma menina perdida; ela vê nele mais que um mero cliente. Não chega a ser uma relação entre pai e filha. Não vai tão longe assim. O tempo é curto. Logo, a menina é esbofeteada por um mafioso, colocada em um carro e depois vista em um hospital, machucada.

Assim nasce o desejo de vingança de McCall: a maneira como ele, sob o comando do diretor Antoine Fuqua, saciará os desejos da plateia. Ele celebra visualmente o que alguns gostariam de fazer: bater nos malvados sem interrupção, com detalhes para o sofrimento, para o sangue, para os tiros, para cada nova investida.

Como se não bastasse tanto a tal celebração, ele ainda brinca com o relógio, marcando o tempo (os segundos) da carnificina. Não resta dúvida a essa mesma plateia, então saciada: faltam homens como McCall para tornar o mundo um local “limpo”.

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A mesma ideia foi lançada ao espectador nos anos 80, e de tempos em tempos retorna: a ideia de que um McCall vale por um esquadrão. Como se justifica isso? Além de forte e inteligente, ele não se deixa corromper. Reúne tudo o que se espera de um humano, com características que não se vê em ninguém. McCall é falso.

Enquanto finge ser gente comum, com seu trabalho corriqueiro, com sua forma de parecer bondoso, ele esconde o super-herói, o tipo chato e sem humanismo, tipo vazio – como um robô – programado para dizer as coisas certas, para fazer o que todos desejam fazer. McCall permite abusos em um mundo de abusos.

É o oposto da personagem de Washington em Dia de Treinamento, também dirigido por Fuqua: justamente o policial corrupto. Em O Protetor, ele é vítima do imobilismo em que Hollywood vê-se ligada, obrigada ainda a retomar os velhos homens indestrutíveis, as velhas tramas de morte em que corpos caem por todos os lados enquanto o herói resiste, com seu jeito simples, como se fosse qualquer um.

O mesmo foi visto, com certa diferença, em personagens dadas a Charles Bronson ou Sylvester Stallone, em outros tempos. A diferença é que Washington prefere silenciar a falar em excesso, prender-se àquele rosto que nada diz, como um cavaleiro solitário, misterioso, e cuja história de vida sequer precisa ser explicada.

Nota: ★☆☆☆☆

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