A Pedra de Paciência, de Atiq Rahimi

Enquanto a mulher cuida de seu marido, em estado vegetativo, é possível ouvir o som das armas, do lado de fora. Seu mundo – nas paredes destruídas e ruas de terra do Afeganistão – está em guerra. Em A Pedra de Paciência, ela é sempre a vítima, também a personagem que se revela. Por isso, está contra todas as outras.

Contra o marido, que nada fala, como rocha. Contra os soldados que ali aparecem, que não vão além do esperado: das armas, da truculência e do desejo de morte. Contra outras mulheres, diferentes dela, pois parecem mais libertas, menos culpadas.

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Ou o oposto: parece ser o mundo rochoso, seco e à base de armas, que se põe contra ela. Em meio a essa aparente confusão, o filme de Atiq Rahimi mostra sua verdadeira face: a história de uma mulher deslocada, fiel, que só consegue revelar seus desejos mais íntimos ao marido quando este está em estado vegetativo.

Não poderia haver saída melhor para tratar do machismo no Oriente Médio. Ali, as mulheres apenas têm espaço quando estão sozinhas, ou entre elas, ou quando falam ao outro como se falassem a si mesmas.

O drama da protagonista sem nome não está no marido inválido, tampouco no abuso dos outros homens em guerra, do lado de fora. Seu drama parte da voz, do íntimo, dos desejos que lhe geram culpa: desejos que envolvem o sexo.

Raro, por isso, um filme como tal, que permite palavras fortes em uma sociedade repleta de restrições e conservadora. A Pedra de Paciência apresenta o universo feminino de salas fechadas e, ainda assim, não deixa saber muito sobre essa mulher.

Ela não tem nome, não tem muito além dos objetos que aparecem naquela pequena sala: o Corão e um punhal. Tem duas filhas, familiares que desapareceram, também uma tia liberal e aparentemente sozinha. Tem, aos olhos do espectador, um mar de segredos.

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Rahimi escreveu o roteiro em parceria com Jean-Claude Carrière, a partir de seu próprio livro. A intolerância é presente em quase todos os momentos da história, mas é interessante perceber como é diluída. O marido inválido nada pode fazer a respeito das confissões da mulher. Não é certo se consegue ouvi-la.

Mas é certo, imagina o espectador, que ele mataria a mulher caso pudesse se mover – e ela, mais certo ainda, nada falaria caso o homem não estivesse em tal estado.

O filme funciona à base da imobilidade, à base de desejos que só aparecem porque se crê falar ao vazio, ou a si mesmo. No fundo, é como se ela utilizasse um escudo para se satisfazer e se sentir livre.

O título refere-se à lenda de uma pedra usada pelas mulheres para que possam se confessar. No filme, a pedra é o próprio homem.

Mais velho, o homem tem sua história revelada pela protagonista. Encontra-se em tal estado após levar um tiro na nuca. Quando se casaram, ele estava em batalha e a cerimônia foi feita sem sua presença. No lugar dele estava o punhal, enquanto as demais mulheres pareciam felizes – à exceção da protagonista.

Homens, por sinal, têm pouco espaço. A certa altura, nasce uma relação estranha, distante, entre a mulher solitária e um soldado gago, rapaz silencioso, de aparente inocência. E se esta é um dos traços desse filme tocante, talvez nem tudo esteja aos pedaços como parece.

Nota: ★★★☆☆

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