Stavisky…, de Alain Resnais

O jeito de Jean-Paul Belmondo não deixa mentir. Ou o contrário: permite que se minta a todo o momento, ainda que o espectador, em Stavisky…, reconheça essa mentira.

Como Serge Alexandre Stavisky, ele é revestido de beleza pelo diretor Alain Resnais, em uma história supostamente verdadeira. Os letreiros da abertura, sobre liberdade de interpretação, são uma desculpa.

Simples: todo filme supostamente baseado em eventos reais lida, diretamente, com a ficção. Questões da falsidade. “Fatos reais” existem apenas na realidade. O Stavisky… de Resnais toca a verdade a partir de ideias, de seu resultado final.

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Para tanto, Belmondo não precisa se preocupar. Ele está à vontade, como o trapaceiro rico, o galã irresistível, talvez o político que deseje mudar as regras do jogo quando se fala, sem parar, em Hitler, Mussolini, fascismo na Espanha, Stálin e Trotsky.

Mais ainda, o líder soviético caçado pelo estalinismo é observado aqui, em paralelo, na época em que se exilou na França. Em momento algum ele encontra Stavisky.

Para Resnais, interessa mais o estado do mundo a partir do trapaceiro, não do idealista. Ou, como parece irônico, os trapaceiros são aqueles que na verdade bagunçam as coisas. A Justiça deveria estar mais atenta a eles, menos aos idealistas políticos.

Enquanto Trotsky é recebido na França, Stavisky desfila por belos elevadores de madeira lustrada, com parceiros, assistentes, passando pelo teatro, a olhar todos aqueles que vivem para ele. A questão teatral é cara: Stavisky, no fundo, é um grande ator.

Nesses golpes políticos, de fascistas a negociadores, todos precisam de interpretação. Como em O Conformista, de Bertolucci, a beleza serve para se aliviar tudo o que é inegavelmente podre. Mas não consegue esconder o pior.

O rico trapaceiro está com seus negócios em ruínas: faz dívidas para manter sua vida como está, com seus jogos, gastanças noite adentro e belas mulheres. Abrir mão de tudo aquilo é renunciar à respiração, à vida.

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Ao seu lado está o sinal do passado, um velho barão interpretado por ninguém menos que Charles Boyer, cuja classe foi emprestada várias vezes ao cinema clássico. É tipo de ator que, com pouco, impõe grande respeito.

O filme de Resnais nasce dessas fusões e é mais formal quando comparado às suas obras passadas, como Muriel e A Guerra Acabou. No entanto, ainda há algo em comum com os outros: a personagem Stavisky é um camaleão, alguém que não se deixa revelar.

Ou vale questionar, ainda, se ela não seria alguém autêntica, que representava os excessos de sua época, dona de uma morte mal explicada. Fica o que parece evidente: a morte por suicídio, como ocorreu ao pai.

Há grande cuidado com o visual, a ponto de parecer falso, ou uma imagem emoldurada de um tempo perdido – como em O Grande Gatsby, de Jack Clayton. O teatro ajuda a compor essa ideia, ou simplesmente a forma como o palco parece importante para Stavisky. A certa altura, ele chega a ler um texto em um teste de elenco.

Interessante notar o desejo do protagonista em estar em meio à política. Por isso, cai em descrédito: ela é feita não por idealistas, mas por malandros da alta sociedade, homens de ternos caros, cercados por belas mulheres, flores brancas e pedras preciosas. Aos idealistas resta o deslocamento, o exílio. O mundo não pertence a eles.

Nota: ★★★☆☆

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