A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe, de Yves Robert

Com o pai, o pequeno Marcel encontra caçadas, colinas, uma grande coruja vigilante no fundo de uma caverna. Por pedido da mãe, ele tem outro caminho: embarca nas várias portas, em diferentes castelos, na trilha que leva à casa de campo.

As situações estão divididas, uma em cada filme de Yves Robert. Em A Glória de Meu Pai, o menino tem, em sua infância, o pai como espelho: aquela grande rocha, o grande herói que tudo deve acertar para preencher suas expectativas.

castelo da minha mãe

No filme seguinte, O Castelo de Minha Mãe, há um tom mais sensível: o pequeno Marcel descobre o amor. Ainda mais: descobre que, na vida, sempre há caminhos alternativos, cheios de portas, de gente estranha, bondosa e surpreendente.

Pois ambos os filmes de Robert abordam a vida: uma pequena odisseia na qual os conflitos são praticamente excluídos. A aventura, ainda assim, não escapa à lente, tampouco à matéria-prima do diretor: as histórias do escritor e cineasta Marcel Pagnol.

O pequeno Marcel é Pagnol, na mágica de sua infância, como se dissesse o elementar, mas como se precisasse de muito para isso: a vida, afirma, é sempre mágica quando observada pelo olhar da infância, pela ingenuidade, como se não fossem necessários grandes labirintos ou grandes dificuldades.

Essa vida, a de Marcel, é pura aventura, com passagens secretas, casas de campo, descobertas do amor, monstros escondidos e raios fortes do alto do céu.

O importante, aqui, é ir ao topo das montanhas, mergulhar no tempo de férias: sair da cidade, da escola, do conhecimento e dos debates; encontrar a terra distante, virgem, os caminhos com saídas às colinas – onde tudo parece justificar a fuga, onde as coisas fazem com que o homem – ou esse garoto ainda imaturo – queira ser ermitão.

glória de meu pai2

Tal desejo nasce no primeiro filme, quando Marcel segue com a família para a casa de campo. Para alguns garotos, seria o último lugar para encontrar as coisas boas da vida.

Ali, contudo, Marcel encontra algo para viver, um sentido, um novo amigo: descobre o ar puro, o enigma da natureza que faz tudo parecer aventura. A partir de Pagnol, Robert explora o conflito entre a natureza e o conhecimento.

A primeira parece nada conter, mas seduz com seus mistérios e esconderijos. Já o conhecimento nem sempre serve de atração às crianças: envolve a escola, grandes paredes e corredores, as obrigações às quais todos devem se submeter.

De acordo com Pagnol, a natureza leva sempre à aventura, mesmo quando tudo parece não mais do que cômico: fruto da imaginação fértil de uma criança.

Os dois filmes são como um só e não funcionam sozinhos. A Glória de Meu Pai prepara o espectador às passagens pelos diferentes portais, por aqueles grandes castelos distantes, aqueles monumentos que podem ser tocados no segundo filme.

Prepara à realidade do encerramento, quando a face humana – a do adulto – não precisa ser mostrada. A infância perde a vez. Fica o amargor da nova vida, da percepção de que só se vive o belo quando a vida passa pela ótica infantil. Nesse caso, até os piores soam engraçados: o guarda malvado e seu cão gigante.

glória de meu pai

Ficam também distorcidos. Nessa fábula longa, sobre as pequenas grandes coisas, a família resiste. Vive-se ao som das cigarras, às trapalhadas rotineiras do tio brincalhão e religioso, à resistência do pai em se entregar totalmente ao cinismo.

A Glória de Meu Pai e O Castelo da Minha Mãe, enfim, abordam a resistência: uma vida de criança que, em sua própria versão dos fatos, não poderia negar a beleza.

Ao fim, já adulto e cineasta, Marcel retorna àqueles jardins e castelos, àquelas portas. Precisa quebrar uma delas, passar ao outro lado, como se buscasse encontrar algo, ou corrigir algo: sofre ao lembrar a dor da mãe, ou ao entender como as pequenas coisas podem ser tão belas quanto doloridas, tão explicativas quanto mágicas.

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