Kansas City, de Robert Altman

Ainda no início de Kansas City, de Robert Altman, duas personagens são vistas com o rosto coberto por maquiagem: a mulher de um político influente, visitada certa noite por uma sequestradora, e o namorado desta, ao assaltar um homem negro.

Tais máscaras, aqui, têm suas razões: para Altman, elas são amostras de esconderijo e fingimento, maneiras de apresentar seres camaleônicos.

kansas city1

Na cidade do Kansas dos anos 30, o clima não é muito diferente daquele visto em outras épocas, em outros filmes, na mesma América de Altman: nos conturbados anos 70 de Nashville, na obra de 1975, ou mesmo em Buffalo Bill.

Encena-se a farsa enquanto o jazz toma o fundo, às vezes à frente, como se tudo não passasse de uma melodia sobre o fim, canto de desesperança – como seria, mais tarde, o último filme de Altman, A Última Noite, de novo sobre a música. Ao mesmo tempo, a política ganha espaço, e alguém ainda ousa fala sobre democracia.

Kansas City começa com a visita de Blondie O’Hara (Jennifer Jason Leigh) à reclusa Carolyn Stilton (Miranda Richardson) – coberta por sua maquiagem, às sombras. A primeira, com a intenção de libertar seu namorado das garras de um poderoso gângster, sequestra a segunda, mulher de um poderoso assessor presidencial.

É dessa forma que Altman estabelece um círculo: faz com que a política e a criminalidade existam em um mesmo espaço, o que ficará cada vez mais evidente. À primeira vista, é Blondie – jovem, sonhadora, falante – que tem o poder de decisão. No outro polo, Carolyn mantem-se em silêncio e depois se revela.

Elas passam a noite juntas. Dormem juntas na mesma cama. Não chegam a trocar muitas confidências. Não se trata de um filme de mulheres. Kansas City tem o ar misterioso e melancólico de Altman, um pouco mais dramático e igualmente ácido.

kansas city2

Ou politicamente ácido, ao incluir sequências em que homens são levados de caminhão às urnas, no dia da eleição, e obrigados a votar em um determinado candidato.

Como em Nashville, mescla-se a política ao espetáculo enquanto se define essa América ao mesmo tempo de grandes pilares brancos, de homens polidos, ao mesmo tempo de segregação racial. Ninguém sai limpo.

O jovem bandido preso pelos mafiosos, Johnny O’Hara (Dermot Mulroney), tem de sujar o rosto com fuligem, passar-se por negro, para tentar ficar com o dinheiro de um apostador. Os negros, ao que parece, são os suspeitos de sempre.

A política sempre encontra um jeito de dar as caras. Blondie e Johnny não têm mais espaço nesse meio de estratégias, de cinismo. São jovens amantes como Bonnie e Clyde, ou como outros que se deixavam levar pelo amor e pelo risco. Os homens de poder ganham peso, também suas mulheres, aparentemente pacatas.

Ao fim, Carolyn explica o que não fez como se fosse algo feito: “Eu não votei”, diz ela, ao marido, que a aguarda no interior de seu carro – com aquele olhar de certeza sobre quem são os vencedores e os perdedores. No cinema de Altman, é pelos caminhos da farsa que se chega à verdade. Sobra crueza.

Nota: ★★★☆☆

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s