Uma Relação Delicada, de Catherine Breillat

Difícil compreender o que leva à dependência de Maud (Isabelle Huppert) por Vilko (Kool Shen). A relação de ambos não chega a algo carnal, tampouco parece envolver amor. Ela simplesmente se deixa levar: preenche folhas e mais folhas de cheque, como se aquele golpista não pudesse enganá-la.

Maud é dividida por fora e por dentro. No começo, descobre que tem metade de seu corpo paralisada. Vai ao hospital, recebe cuidados e aos poucos tenta se recuperar. Passa o filme todo com dificuldades para se locomover, às vezes para cumprir simples tarefas do dia a dia. Ao fim, ao constatar o desfalque financeiro dado por Vilko, ela não consegue explicar por que deu aqueles cheques, ou o que estava fazendo.

relação delicada

Uma Relação Delicada, de Catherine Breillat, narra a história dessa mulher dividida, cineasta supostamente inspirada na própria realizadora da obra. Certa noite, quase toda coberta, Maud vê Vilko na televisão, em uma entrevista. Ao contrário dela, ele nunca deixa saber algo a mais: é misterioso, bruto, de atitudes inesperadas, também o suposto bandido com roupas de marca, como uma personagem de ficção.

Ela, por sua vez, deixa-se encantar não pelas possibilidades amorosas ou sexuais. Vê nele o homem de seu próximo filme, para sua câmera: o seu novo ator.

A situação não é nova: artista deixa-se encantar por alguém inconfiável, explosivo, o que leva a algo perigoso – ou, como quer o título, delicado. Pois Maud não tem o controle sobre Vilko, nem sobre si mesma. A artista é controlada pelo homem que deveria dirigir em seu próximo trabalho. Os lados invertem-se.

Breillat esculpe esses seres à base da emoção. Eles nunca medem as consequências de seus atos, e simplesmente seguem em frente como se não pensassem no passo seguinte. Vilko surge para Maud em um momento delicado, quando ela passa por problemas de saúde, com o corpo paralisado. Ele materializa um mundo bruto.

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Em meio à sua fraqueza, o criminoso dá-lhe o antídoto: é o oposto àquilo que ela aparenta, com suas dificuldades e partes do corpo contorcidas, com crises e quedas, com sua irritação em ter de depender dos outros. De um lado há as dores dela, a dificuldade para viver; de outro, o jeito como ele faz a vida parecer fácil.

É dessa mescla que nasce a beleza da obra de Breillat: a maneira como tudo parece entregue, às claras, e como tudo ainda permanece incompreensível, fora do alcance dos olhos. Uma Relação Delicada leva a um final triste, à constatação de que Maud não entende suas atitudes e de que o ilusionista era Vilko.

Nota: ★★★☆☆

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