A falsidade americana em dois filmes de Douglas Sirk

A protagonista de Sonha, Meu Amor, do cineasta Douglas Sirk, não sabe como foi parar no interior de um trem, certa noite, onde acorda assustada. Dentro de sua bolsa há uma arma e essa dama tampouco lembra por que carrega o objeto.

Trata-se de um aviso: aquela sociedade mostrada por Sirk – apesar da sempre bondosa mulher ao centro – tem algo de mal e inesperado. A vida de Alison Courtland (Claudette Colbert) é colocada de cabeça para baixo.

sonha meu amor

Contra ela, um complô. O espectador desconfia, depois tem a confirmação. Ela segue como sempre foi e como outras personagens de Sirk: como uma vítima.

Seu marido tem outra mulher, deseja matá-la e ficar com sua fortuna. Envenena sua bebida, sua alma, fala coisas que talvez a levem ao suicídio. Algo macabro esconde-se por trás daquela bela grande casa com grande escadaria, de vários andares: um espiral revelado por Sirk como amostra da desorientação das personagens.

Há toques expressionistas, como nos filmes de Fritz Lang da mesma época. A história não fica para trás: leva pensar no interessante Trágico Álibi, de Joseph H. Lewis, no qual a protagonista também é vítima de uma conspiração, e em Interlúdio, de Hitchcock, com Ingrid Bergman sendo morta aos poucos pelo marido.

À época, as questões relacionadas aos distúrbios da mente estavam em alta em Hollywood. Diretores como Sirk, vindos da Europa para escapar do nazismo, exploravam, na tela, a maldade no fundo dos lares aparentemente calmos, americanos, na face dos maridos supostamente bondosos mas assassinos.

Com seu rosto feito à calmaria, Colbert é a vítima perfeita e, como o marido, Don Ameche é a falsidade em pessoa, cínico em excesso. Resta ainda a dama fatal, Hazel Brooks, como uma vampira saída de algum filme de terror B de Val Lewton.

apaixonados

Esses ingredientes fazem nascer quase um filme de terror, no qual a falsidade dos ambientes e as sombras retiram qualquer amostra de realismo. É diferente do trabalho seguinte de Sirk, Apaixonados, também sobre a procura por esconderijos.

Nesse caso, o caminho é o oposto: não há aqui o suspense que leva à morte, mas o drama que aponta à absolvição. É sobre uma bela mulher que sai da prisão após cinco anos e acaba tendo um relacionamento amoroso com seu agente de condicional.

Ela, Jenny Marsh (Patricia Knight), não é totalmente confiável e quase chega a ser presa de novo. Aos poucos, o agente Griff Marat (Cornel Wilde) mostra-lhe outro lado da vida americana: as belas casas familiares, as belas vizinhanças, os meninos sem malícia que leem poesia, a mãe pura que ela poderia ser.

A mãe de Griff é cega, o que o roteiro de Helen Deutsch e Samuel Fuller utiliza para questionar quem realmente pode ou não enxergar nessa história. Com Griff, a bela bandida, ou ex-criminosa, passa a enxergar novamente. Absolve-se.

Apaixonados, ao contrário de Sonha, Meu Amor, leva à realidade, àquele asfalto quente e local ideal para a morena tornar-se loira. Em ambos os filmes, sobressai-se um jogo de falsidades: às sombras no primeiro, às claras no calor do segundo.

As características observadas nos melhores filmes de Douglas Sirk, feitos nos anos 50, já podem ser vistas nesses filmes da década anterior. A principal é o rigor na construção dos ambientes e o clima, superiores às saídas mal resolvidas de seus roteiros. O melodrama já estava presente em Apaixonados, com seu amor quase impossível, com sua ironia: os caminhos que tornam a mulher honesta e o homem um criminoso.

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