Um Tiro na Noite, de Brian De Palma

É pela aparência de falsidade, em Um Tiro na Noite, que o herói chega à verdade. Esse protagonista jovem, bisbilhoteiro, passa por aquelas salas pequenas, bagunçadas, em que filmes são revelados, em que se brinca com a realidade, nas quais ela é picotada e o som dos filmes é separado. É, em suma, uma sala de criação.

Ali, também, revelar-se-á a verdade por trás de um crime político: o som da bala que atingiu o pneu do carro do governador e possível futuro presidente dos Estados Unidos. O protagonista, apesar de testemunha, precisa ir além e recorre à sua parafernália.

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Não se trata de um mero acidente, como querem outros líderes. Jack Terry (John Travolta) estava à beira daquelas águas, naquela noite, quando o carro do governador caiu da ponte. Ele não pensou muito: mergulhou e conseguiu salvar a mulher que estava dentro do carro. No hospital, é persuadido a ignorar sua própria versão.

A mulher é Sally (Nancy Allen), típica garota com pouco cérebro e o corpo – e jeito – feito para fisgar alguns grandes figurões e os colocar em situações desagradáveis.

Para o diretor, Brian De Palma, toda essa trama que dá luz ao filme pode ser apenas um jogo de falsidades. E, sobretudo, uma camada interessante para levar a obra a outro caminho, o que inclui um serial killer atrás de belas mulheres como Sally.

A homenagem a Blow-Up é evidente desde o título: nos dois filmes, os protagonistas descobrem a verdade apenas mais tarde, por meio de seus objetos de revelação. Para Antonioni e De Palma, a arte fornece nova versão aos fatos, a descoberta – seja por meio da ampliação da imagem ou da exploração do som.

Em Um Tiro na Noite, tudo à volta de Jack faz pensar em um universo de fingimento – a começar por ele próprio, com o jeito que não esconde o mesmo homem de Os Embalos de Sábado à Noite, malandro e ingênuo ao mesmo tempo, aquele tipo que circula por ruas sujas e cinemas pornográficos.

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É o tipo ideal para essa empreitada: sujo o suficiente para ouvir a conversa dos outros, destemido e incorruptível para continuar a se questionar. Para ele, como bom americano que parece ser, o som da bala penetrando a borracha muda tudo.

Descobrir a verdade, aqui, é mergulhar em menores partículas, é retornar a fita, é separar o som, é entender que, ao fim, não se vive sem o som do grito de dor.

O som do crime real será incorporado à ficção. Apenas partes verdadeiras podem engrandecer a arte – sem que esta precise ser totalmente verdadeira para ser autêntica. Mesmo tomado pela dor, o protagonista ainda utilizará o grito de Sally, prestes a morrer, para preencher a lacuna que faltava àquele filme B da abertura.

Os lados invertem-se: a política da verdade – das ruas e dos candidatos, do Dia da Liberdade e de seus fogos de artifício – é pura mentira. A verdade está dentro das salas do técnico de som, dos cineastas, daquelas meninas prontas para se despir em troca de alguns dólares e, quem sabe, oferecer a visão desejada a algum diretor.

Fala-se do cinema. Durante os créditos, De Palma divide a tela em duas partes. Do lado esquerdo está Jack em seu trabalho, colhendo efeitos sonoros; do direito, a televisão ligada. O cineasta mostra dois lados de um universo falso e, de quebra, antecipa a morte do político influente quando Jack expõe o som do tiro. Para alguém que lida com a ficção, nada é mais desafiador do que a verdade.

Nota: ★★★★☆

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