Praia do Futuro, de Karim Aïnouz

Em Fortaleza, Ceará, o visual é de misturas: grandes estruturas de metal, das empresas e dos geradores de energia eólica, fazem parte das paisagens com belas praias, areia branca, com um mar ao qual se lançam dois homens, logo na abertura.

Motociclistas, essas personagens cruzam caminhos indefinidos: não se sabe em que ponto começa e termina aquela estrada formada pela areia. Será assim, também, no encerramento de Praia do Futuro, quando motociclistas, dessa vez na Alemanha, vagam por uma estrada sem fim, consumidos pela névoa.

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De Karim Aïnouz, o filme apresenta homens perdidos em uma paisagem meio selvagem, meio futurista, mais tarde em Berlim, a velha cidade reconstruída. Fortaleza, no Brasil, tem aquele ar selvagem buscado pelo turista europeu, com sol forte, com a aparência de que tudo está às claras e entregue.

Mas a aparência de que faltam mistérios aos poucos se dissipa: os homens de Praia do Futuro estão em busca de um lugar no mundo e terminam como náufragos.

Donato (Wagner Moura) é o salva-vidas que não consegue resgatar um homem em meio ao mar, morto por afogamento. As águas bravas confrontam essa personagem. Depois, ele sentirá certo receio em mergulhar fundo no oceano, com seus colegas de profissão. O homem morto era parceiro do alemão Konrad (Clemens Schick).

Os sentimentos, em Praia do Futuro, brotam em meio a gestos bruscos. Aïnouz filma a relação entre homens sem explicar muito, deixando aos cantos migalhas de drama. O mínimo sempre é mais: as personagens explicam-se pouco ou quase nada.

O protagonista passa a viver em Berlim, mas ainda não se encontra. Não tem terra. Bebe em um bar, dança em uma festa. Escolheu viver ali, longe do Brasil, talvez para fugir de tudo o que levava às suas raízes: aquilo que ele não pode suportar.

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Em seguida, o diretor mostra a dificuldade em se escapar das raízes, pois, à frente, o irmão de Donato virá atrás dele. É Ayrton (Jesuita Barbosa), com traços de criança, mas tomado pela fúria do adulto, inconsequente e corajoso.

Há sempre estranhamento entre esses náufragos. Praia do Futuro aproxima-se – devido às idas e vindas, aos laços familiares – do melodrama. Mas é frio, propositalmente distante, com homens em meio às máquinas e em busca de certa sensibilidade.

Ao encontrar Donato, a primeira coisa que Ayrton faz é brigar. Bate no outro, lança-o à parede. Não pode ser de outra forma a não ser desse jeito desconfortável, como se do paraíso e das brincadeiras à beira mar eles tivessem passado à falta de vida das estruturas metálicas, dos grandes prédios.

De um homem ao mar, salvador de vidas, Donato converte-se em um nadador de grandes aquários e piscinas fechadas: mergulhou em outro mundo sem muita explicação, talvez por amor ao homem alemão. Pouco depois de avisar Konrad sobre a morte de seu companheiro, no início, Donato convida-o para uma carona. Logo estarão fazendo sexo. Logo se tornarão confidentes, e logo passam a viver juntos.

Os homens, no fundo, continuam como sempre foram: brutos, nem sempre inclinados a falar de sentimentos, ligados pelos gestos do corpo. Praia do Futuro é sobre seres em uma estrada cercada por névoa, mergulhados no desconhecido.

Nota: ★★★☆☆

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