O Ano do Dragão, de Michael Cimino

Nem sempre é fácil entender as escolhas de Michael Cimino. Seu O Ano do Dragão, lançado após o fracasso comercial de O Portal do Paraíso, é um filme feito à base de energia, tão eloquente que é difícil entender o herói ao centro da história.

Esse policial durão trabalha em uma terra estranha, Chinatown, e luta para dominá-la, para ser um homem branco de respeito. O filme de Cimino, tal como Taxi Driver, parece resgatar ecos de antigos faroestes, sobretudo de Rastros de Ódio.

ano do dragão1

Ou seja, é sobre um macho cheio de princípios, guiado pelo desejo de mudança. E, tal como no filme de Scorsese, esse homem tem um passado que o assombra: forma de mostrar o quanto as feridas do Vietnã continuam abertas.

Esse policial é Stanley White (Mickey Rourke), experiente como parece ser, não tão velho como poderia ser. Os cabelos brancos são abertamente falsos, a exemplo de muitas outras coisas por ali. Cimino brinca com as misturas: faz de seu herói ao mesmo tempo um homem louco e apaixonado, tão explosivo quanto sentimental.

E, ao mesmo tempo, ele será também um amante. É difícil julgá-lo e saber o quanto ele parece se arrepender do que faz, ou se realmente sofre quando um companheiro chinês morre baleado, após ser descoberto como infiltrado da polícia.

White não se define, mas serve um filme de gênero, ao qual Cimino reserva detalhes que permitem outros caminhos. No entanto, em sua casca dura e saliente, a obra é o que parece ser: um filme de máfia e de guerra entre grupos.

A frase final de Chinatown, de Polanski, parece servir de alerta: é melhor esquecer tudo aquilo, não querer lutar, pois aquilo – ao americano – é incompreensível.

O Ano do Dragão traz a saga de White para se estabelecer como líder do bairro. Seu desejo profundo, ao que parece, é trazer a dominação daquele território de volta aos homens brancos. Os chineses negam a existência da máfia: vivem como se as regras estivessem certas, como se nada pudesse mudar as questões culturais.

O intruso é americano. White investiga a morte do poderoso chefão de um clã chinês. Enquanto um bando de homens comemora, à rua, com suas festas típicas, esse chefão leva uma facada no peito em um restaurante, logo na abertura.

ano do dragão2

O que poderia desaguar em uma batalha de gangues, ou de famílias, resulta sim em uma estratégia de busca pelo poder absoluto. Por trás desse jogo está o ambicioso Joey Tai (John Lone), genro do líder morto, dos ternos brancos aos pretos.

Ao mesmo tempo em que ganha força em sua cruzada, White perde força dentro de casa: ele não consegue dar atenção e amor à mulher, e também não está presente para lhe dar um filho. Essa relação é uma forma de o roteiro, escrito por Cimino e Oliver Stone, mostrar o quanto esse herói tem seu lado frágil e impotente.

Ao programar a invasão a alguns becos sujos de Chinatown, alguém fala para White sobre direitos humanos. “Fodam-se os direitos humanos”, ele retruca. Quando alguém fala em política, naqueles gabinetes sempre ampliados pelas câmeras de Cimino, White novamente tem sua resposta: “É o Vietnã se repetindo de novo”.

Esse homem raivoso – ainda mais quando perde a mulher, assassinada por chineses – é a face de uma América cansada de tratados, de política, uma América que, não por acaso, busca a mídia para expor o que deseja.

Não se trata de uma imprensa honesta ou ética, mas de uma arma capaz de levar as perguntas desejadas aos mafiosos que sempre negam o que é dito. E, nesse sentido, é interessante notar como a repórter Tracy Tzu (Ariane) responde suas próprias perguntas enquanto as faz a seus entrevistados, incluindo o próprio White.

Dono de uma carreira nem sempre compreendida, Cimino mostra gosto por grandes sequências elaboradas, por certa visão épica da América. Contudo, essa visão épica quase sempre inclui o pior de seu país, como as besteiras do Vietnã em O Franco Atirador e a xenofobia em O Portal do Paraíso.

Trata-se de inverter o épico: mostrar o quanto a beleza das imagens nem sempre servem personagens verdadeiramente heroicos e honestos, muitas vezes vítimas da questão política – a questão que White tanto despreza.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s