Chicago, de Rob Marshall

Tudo se converte em espetáculo na terra em que o show não pode parar. A vida confunde-se com esse espetáculo: ora há músicas, ora há lamentações. A realidade perde a vez, fica pequena, quase desaparece aos olhos do público.

Em Chicago, de Rob Marshall, é assim: um show divertido com tom de crítica, em uma cidade que transforma criminosos em celebridades. Era o tempo de Al Capone, do jazz, de bebidas a regar a noite, de criaturas malvadas que o cinema adorava mostrar.

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Ao centro está uma lourinha Roxie Hart, com o mesmo tipo de Ginger Rogers. Não por acaso, a própria Rogers viveu Hart em um filme de 1942, dirigido pelo mestre William A. Wellman. Ela reúne inocência e maldade, aquele tipo ao mesmo tempo sexy e disposto a se inclinar a qualquer homem que apenas diga um “sim”.

Como ela explica, a certa altura de Chicago, cantando, durante boa parte da vida sofreu com a turma do “não”. Nessa terra de aparentes facilidades, em plena Depressão, todos querem o “sim”: a comprovação de que tudo podem, de que não há impedimentos.

No filme de Marshall, Hart é vivida por Renée Zellweger, que precisou emagrecer para ficar com aquele tipo raquítico, aquele jeito de menina frágil, a quem o pequeno cabelo louro e as mechinhas onduladas servem à perfeição. Nasce então esse belo retrato americano: ingênuo, perigoso, sonhador.

A câmera, na abertura, vai ao fundo de seus olhos, segue a seus sonhos. E quais são eles? Ela deseja se tornar um estrela, cantar nos palcos, ser apresentada, talvez, a um grande produtor disposto a bancá-la, a lhe dar o sucesso.

Mas Hart só poderá chegar a tal sonho quando o crime surge em sua vida. Para estar nos jornais, ela terá de matar, de se tornar uma atiradora e, depois, lutar para vender sua marca e se tornar a excitante assassina, querida da mídia sensacionalista.

Forja-se assim algo acima do bem e do mal: a marca que essa menina terá de sustentar para escapar da forca e, de quebra, encontrar seu meio perfeito: o palco onde tudo pode ser falso e, ao mesmo tempo, prazeroso e recompensador. Ela deseja apenas fingir, fazer o que sabe fazer muito bem, talvez até se aliar a uma inimiga para tanto.

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Nessa América, tudo vale. Como ponte ao sucesso dela está o advogado Billy Flynn (Richard Gere). Dizer que se trata de alguém corrupto é tão desnecessário quanto dizer que Hart está disposta a parecer uma vítima, em público, em alto e bom som. Jogam o mesmo jogo: ele finge gostar do amor, ela finge estar disposta a amar.

Ambos forjam o equilíbrio: falam à imprensa aglomerada como se falassem como santos. Ao fundo, no número musical em que Hart é um ventríloquo de Flynn, todos são manipulados – e a imprensa, coitada, torna-se mera marionete. Todos servem ao show da cegueira enquanto Marshall, em paralelo, apresenta o verdadeiro show.

À espreita está o furacão Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), exato oposto a Hart: morena, sedutora, nada ingênua, mas igualmente assassina. Essas mulheres completam-se sem saber: são seres que alimentam um ramo de atividade no qual o ódio, explicará Velma ao fim, não fará qualquer diferença nos palcos. Tudo termina em show.

Todas as canções dialogam com as situações mostradas. Mais ainda: elas ajudam a narrar a história, como deveria ser em qualquer musical. O filme não tem aquela aparência às vezes anárquica de Cabaret, de Bob Fosse, nem mesmo sua libertinagem. Chicago é mais “limpinho”, mais cômico, aparenta ser mais calculado.

Ainda assim, faz pensar na obra de Fosse, também situada em um período complicado da história da humanidade, na Berlim à beira do nazismo, quando os cabarés – como na Chicago dos anos 30 – serviam de fuga. Bastava abrir os olhos e sonhar. Ou, como parece ser o caso de Hart, deixar que os sonhos entrem ali.

Nota: ★★★★☆

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