12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen

Os olhos de Solomon Northup não deixam mentir: trata-se de um homem bom, honesto até o último fio de cabelo. E o que ocorre com um negro honesto nos tempos da escravidão? Ele encontra seu oposto: o senhor branco mau, que não deixa esconder sua fúria em cada chibatada que solta ou manda soltar.

Por isso, 12 Anos de Escravidão, do início ao fim, é sobre o confronto entre lados. Ninguém parece transitar entre ambos: ou é bom ou mau, ou é branco ou negro. Os únicos que parecem isentos desse conflito são os índios que surgem em determinada altura – para desaparecerem em seguida – e algumas exceções.

TWELVE YEARS A SLAVE

O filme de Steve McQueen dá voz às minorias nos tempos da escravidão. É sobre o caminhar de Solomon, seus medos, suas descobertas, sua invasão àquela mata verde que faz surgir um paraíso às aparências.

O homem ao centro é livre, mas é negro. Contra ele há uma condição aparentemente comum: é um “suspeito de sempre”, contra quem sempre haverá o ódio dos brancos, mestres em suas grandes casas brancas, malvados até o último fio de cabelo.

A luta é pela sobrevivência, pois Solomon, ao ser transformado em escravo, viverá o que há de pior em seu mundo: o inferno na terra. Olhos curiosos, olhos de medo, olhos de descoberta. Não é difícil dizer que se trata, no fundo, de um filme sobre um olhar, que guia o público à história e suas besteiras.

Negro, McQueen volta-se mais às dores do que às particularidades da vida daquele homem. Seu filme prende-se àquilo que o público de Hollywood espera, com um drama denso de momentos inesperados (e outros esperados), regado à violência da qual ninguém dúvida. Nada há de muito sutil além daquele olhar e alguns detalhes.

É violento: há chibatadas, enforcamento, abusos, golpes abruptos. Para os negros, nada, ou quase nada. Solomon toca violino. Chama a atenção e às vezes, no meio da noite, é convidado a ir à grande casa do senhor tocar enquanto outros escravos dançam.

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Nos campos, os mesmos dedos que tocam o violino são vistos a arrancar o algodão. Enquanto isso, algum branco passa com seu cavalo, soltando chibatadas. Quando um negro morre, por ali, os outros ainda acreditam que ele está vivo. A sobrevivência é tanta que afugenta a ideia da morte. O lema é sobreviver.

Para isso, Solomon tem sua aprendizagem: não deve dizer nada além do que os brancos desejam ouvir. Para sobreviver, deverá mentir e até mesmo dar chibatadas – quando o mestre ordenar – em uma jovem negra, justamente a preferida do líder branco.

Preso à estrutura do drama racial, McQueen ora ou outra consegue escapar do esperado e entrega um filme sincero, cru em alguns momentos. Quando a música Hans Zimmer surge, algo se perde e, no fundo, 12 Anos de Escravidão talvez não seja muito diferente de outros dramas de época. O melhor vem depois, para longe das torturas e da violência, quando a câmera prende-se ao olhar de Solomon e o deixa preencher a tela.

Há uma semelhança com o filme anterior de McQueen, Shame, sobre um homem viciado em sexo. Ambos, apesar de tão diferentes em estrutura e tema, são obras sobre homens presos a um círculo, com dificuldades de escapar. Naquela arena, chegam aos seus limites físicos e psicológicos. Quase sucumbem.

O dono do olhar é Chiwetel Ejiofor, ator nascido para aquela personagem. Torna-se a fonte de esperanças do público, de tudo que o cerca, vítima do olhar branco. Ao seu lado surgem outros bons atores, como Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti e até Brad Pitt.

Alguns brancos são bons, a maioria não. Contra o negro ao centro há um universo difícil de entender. Por que um homem acorda seus escravos no meio da noite para fazê-los dançar? Por que a mulher desse mesmo senhor aceita viver de acordo com aquelas condições? Por que o escravo, quando passa pela floresta e sonha com a liberdade, sempre encontra mais carnificina? McQueen mostra uma nação cuja história foi escrita com intolerância, insensível àquele olhar de desespero.

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