Especial Oscar 2014: Corações valentes

Gravidade, Capitão Phillips e 12 Anos de Escravidão

Os heróis do Oscar 2014 têm força de vontade. Eles não se entregam nunca. Em Gravidade, Capitão Phillips e 12 Anos de Escravidão, a morte está de todos os lados. São heróis cercados e oprimidos. Têm tudo para perder e não perdem.

Contra alguns há outros homens. Contra outros, a situação em que se encontram. Vale perguntar o que é pior: estar solto no espaço, sem gravidade e tentando retornar a Terra ou ser negro durante a escravidão americana? Ou estar na mira de algumas armas, sequestrado, no meio do oceano?

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gravidade

Os heróis do Oscar resistem a isso, e não desistem. Não vale revelar o desfecho de cada um deles. Em Gravidade, por exemplo, o desfecho resume tudo. É o único dos três que não se baseia em história real, o que não diminui seu impacto.

Há outra diferença fundamental: durante a maior parte da obra de Alfonso Cuarón, Sandra Bullock está praticamente sozinha. George Clooney vaga por ali, ora como homem de verdade, ora como um espírito que dá forças à cientista Ryan Stone (Bullock), em luta para encontrar sua própria “gravidade”.

A certa altura, ela conta como perdeu um filho em circunstâncias banais e se revela presa àquele trauma. Por um daqueles motivos inexplicáveis, ela está no meio do espaço – sem teto, sem chão, sem paredes, sem quase nada senão a força.

O filme é, de longe, um dos melhores da safra de 2013. Tecnicamente brilhante, Gravidade reforça também o talento de Cuarón, realizador do ousado E Sua Mãe Também e do futurista Filhos da Esperança. Mexicano, ele é o favorito à categoria de direção e conseguiu arrancar, enfim, uma boa interpretação de Bullock.

captain phillips

Diferente desse espaço ao mesmo tempo infinito e claustrofóbico de Gravidade é o pequeno barco em que Tom Hanks, como o capitão Richard Phillips, fica confinado em boa parte de Capitão Phillips, sob a mira dos piratas somalis.

O filme tem tudo o que se viu em outros filmes de Paul Greengrass, seu diretor: câmera trepidante, montagem ágil, clima documental e gente real demais para estar em um filme tipicamente hollywoodiano. E tem Hanks, o astro de Forrest Gump, esnobado pelo Oscar por sua interpretação, e fazendo, de novo, um homem no limite – como fez em Náufrago, de 2000, último filme que lhe rendeu uma indicação.

No longa, Phillips confronta, a todo momento, o líder daqueles piratas, Muse (Barkhad Abdi, indicado ao prêmio de coadjuvante). Ele e outros três tomaram o grande barco de Phillips e Muse convoca a si mesmo como o novo “capitão”. É um filme sobre esse conflito de autoridade, também sobre pesos e medidas aparentemente semelhantes, pois, como Phillips, o pirata está ali para realizar um “trabalho”.

12 anos de escravidão

Mais escravizados que os somalis estão as personagens de 12 Anos de Escravidão. Se há um candidato em 2014 com todas as características que o Oscar adora é o filme do britânico Steve McQueen – que pode se tornar, é verdade, o primeiro cineasta negro a ganhar o prêmio de melhor diretor (isso, claro, se o latino Cuarón não atrapalhar).

É sobre causa racial, baseado em história verdadeira (de um livro) e com aquele protagonista certinho (Chiwetel Ejiofor) cujo olhar leva à tristeza à qual o filme quer chegar – nem dramalhão ou frio em excesso. Tem o equilíbrio certo, com diversas sequências de tortura que incomodaram muitos e arrancaram suspiros de outros.

Ao centro está não um negro sem alfabetização e oportunidades, mas um homem livre, culto, vendido como escravo pouco antes da Guerra Civil Americana – que, por sinal, colocaria fim à escravidão, na história contada em Lincoln, de Spielberg.

A obra de McQueen chega à festa com pinta de vencedora. E, se as previsões estiveram corretas, ficará também com o prêmio de atriz coadjuvante para Lupita Nyong’o, a escrava preferida do senhor daquelas terras ensolaradas e bonitas à primeira vista, mas banhadas ao mal mostrado sem rodeios. Como o heroísmo de seu escravo.

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