Especial Oscar 2014: Belezas americanas

Trapaça, O Lobo de Wall Street e Clube de Compras Dallas

Os anti-heróis são mais sedutores. Hollywood demorou um pouco para descobrir isso. Nos anos 40, em meio à febre do filme noir, essas figuras dúbias surgiam das sombras, das noites em claro com mulheres perigosas, bebidas e amigos assassinados.

A modernidade fez do anti-herói quase uma figura comum. Ele está em todos os lugares, em todos os filmes: parece ruim em alguns momentos, bom em outros, quase sempre inconfiável. É o caso, por exemplo, de Irving Rosenfeld, o protagonista de Trapaça, vivido por Christian Bale.

trapaça

Tão difícil quanto gostar é desgostar dele. É um ser ora repugnante, ora sincero. O que fazer? Com Trapaça, tem-se mais comédia do que drama, o que torna a aceitação de Rosenfeld – como também a dos outros trapaceiros – mais fácil.

Encurralado pelo FBI, ele vê-se obrigado a colaborar: tem de ensinar aos homens da lei as artimanhas dos trapaceiros. Ao lado de sua saborosa companheira, Sydney Prosser (Amy Adams), ele deverá entregar quatro cabeças ao agente Richie DiMaso (Bradley Cooper). Depois disso, estará livre para seguir em frente.

O problema, no filme de David O. Russell, é que ser trapaceiro significa viver. Ser assim com naturalidade, como se nada houvesse no caminho contrário. Todos são falsos. Nesse meio, surgem novas figuras a cada segundo, novos trapaceiros: pequenos bandidos, políticos, membros da máfia italiana. As coisas saem dos trilhos.

Para viver, Rosenfeld trapaceia americanos que precisam de dinheiro, quebrados e desesperados. O mesmo faz outro anti-herói americano recente, o protagonista de O Lobo de Wall Street, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio).

o lobo de wall street

Ainda mais perigoso que Rosenfeld, Belfort tem uma característica marcante: ele não quer se aproximar do público, não quer ser amado e impõe suas próprias regras. Ou é com elas ou é nada. Vai para Wall Street ficar rico à maneira mais fácil possível, vendendo ações podres, fazendo promessas que não poderá cumprir.

Danem-se os outros. Sempre será assim no universo de Belfort, meio selvagem no qual o que importam são as cifras, os números – ao passo que a loucura desse anti-herói contagia a todos, com seu microfone, seus gritos, seus rituais.

É um Scorsese em grande forma e que faz pensar em suas obras passadas. Poucas vezes tanto sexo e tanta droga surgiram tão gratuitamente em seus filmes. É como se o combustível de Belfort não acabasse nunca, como se sempre houvesse uma nova viagem de drogas, um novo delírio, um novo confronto.

Vive tão intensamente que não se dá conta dos perigos. Ou simplesmente é indiferente a todos eles. É um pouco como outro anti-herói baseado em um homem verdadeiro, o Ron Woodroof de Matthew McConaughey, protagonista de Clube de Compras Dallas.

clube de compras dallas

Portador do vírus da aids, machista, caubói, homofóbico e outras coisas, essa personagem tem tudo para fazer explodir seu universo. Descobre ter a doença após ser internado no hospital, ao levar um choque elétrico acidentalmente.

O médico sentencia: Woodroof tem apenas um mês de vida. Ele estuda o caso, não se conforma. Malandro como é, ou apenas um sobrevivente nessa selva que é a América (como em Trapaça e O Lobo), ele terá de encontrar outro caminho para ficar entre todos e sobreviver. De quebra, tirará proveito disso.

Mesmo fragilizado e mais consciente, Woodroof segue como anti-herói, pouco a pouco menos repugnante, nem por isso menos verdadeiro e duro. Woodroof é um daqueles seres que não trapaceia o espectador: é cru como Belfort, malicioso como Rosenfeld. Na pele de McConaughey (vinte quilos mais magro) é a síntese de uma América desesperada, em busca de uma saída, doente e oportunista.

Há sempre uma chance para mudar, uma forma de redenção. Woodroof muda. Do anti-herói, ele move-se lentamente ao ser heroico e conquista o público. É alguém no limite, nem fraco nem forte, alguém que se deixa mudar. Mutante.

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