Especial Oscar 2014: Gente como a gente

Nebraska, Philomena e Ela

Na abertura de Nebraska, um homem caminha pela estrada. Ele tem um destino, ainda que não saiba, aparentemente, para onde vai. Apenas segue, com seu andar desajeitado, em busca de um milhão de dólares.

Isso mesmo: um milhão de dólares. É Woody Grant (Bruce Dern), um senhor um pouco senil que diz ter ganhado tal bolada. Até sabe como chegar até ela, seu destino e outras coisas que envolverão essa viagem. Por outro lado, pouco liga para as circunstâncias.

nebraska

Ele explica a situação ao filho. Depois à mulher, depois a todos os velhos amigos. O filho David (Will Forte) sabe que se trata de uma besteira, da inexistência de tal prêmio. E sabe, ainda mais, da importância daquela farsa ao pai: o que vale não é o dinheiro, mas o caminho a percorrer, o gosto da mudança.

Ou da busca. Por meio dela, o homem tenta atingir seu objetivo, firmar-se como algo, dar certa relevância à sua própria existência – quando já velho e moribundo.

Alexander Payne, o diretor, adora filmes de estrada, como vem mostrando em seus últimos e não variados trabalhos. Essa fixação pela jornada de gente comum – não raro extraordinária, com pequenos e ricos detalhes – traz também um cinema que nem sempre recebe a atenção merecida na indústria do espetáculo.

Tão cativante quanto a história de Grant é a de Philomena, aquela senhora simpática, de respostas rápidas e língua afiada, vivida por Judi Dench. Ela também sai em uma viagem para tentar encontrar seu filho perdido. Ao seu lado está um jornalista cínico. Um encontro curioso: ela é religiosa, ele é ateu.

O conflito dá recheio a esse filme adorável, que leva o nome de sua protagonista, dirigido pelo experiente Stephen Frears. Philomena esperou 50 anos para procurar o filho. Há um pouco de mistério nesse espera. De repente desperta, busca ajuda e, por meio da filha, descobre o jornalista Martin (Steve Coogan).

philomena

Juntos, terão de atravessar o Atlântico e chegar à América à qual o filho de Philomena foi levado quando pequeno, vendido por freiras para uma família americana. Jovem, a protagonista foi punida pelas freiras por fazer sexo com um homem antes do casamento, por puro prazer. Engravidou e teve seu filho vendido.

A senhora não esconde a felicidade do ato: diz que encontrar o pai de seu filho foi bom, que o sexo foi prazeroso (ainda que momentâneo). Com o jornalista, décadas depois, ela descobrirá muito mais do que imagina. O filme equilibra-se bem entre a comédia e o drama, com bons diálogos entre personagens, enquanto fazem descobertas.

Talvez mais interior do que exterior seja a viagem do protagonista de Ela, de Spike Jonze. Mesmo vivendo no futuro, cercado por máquinas maravilhosas, pelo brilho que resiste ao opaco, Theodore Twombly ainda é um homem comum.

ela

A ele, Joaquin Phoenix confere doses de simplicidade. E o que poderia ser mais comum do que um homem em busca do amor e de uma companheira? Talvez o fato de estar no futuro e de a companheira ser uma máquina.

Apenas isso seria capaz de distanciar Theodore de gente comum como Philomena e Woody Grant. O curioso é que Jonze não deixa isso ocorrer. No futuro, as buscas continuam as mesmas. Ou mais: os fins são os mesmos, não necessariamente os meios. Para Theodore, o meio encontrado é o da máquina.

Ela chama-se Samantha (voz de Scarlett Johansson). Não tem forma, mas tem voz e até mesmo sentimentos. Ama e responde a ele como uma mulher quase perfeita: é companheira, amante, secretária e sempre presente. Tudo ao mesmo tempo.

Não se trata de uma crítica à mecanização da vida, mas uma amostra da solidão. Como outros seres comuns, Theodore está em busca de algo para preencher seu vazio existencial, para dar sentido a seu caminho. A coisa não poderia ser outra: o amor.

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