Nascido para Matar, de Stanley Kubrick

De um lado para o outro, do fundo à frente, o sargento Hartman (R. Lee Ermey) não sai do lugar. A câmera de Stanley Kubrick percorre aqueles espaços em seu encalço, enquanto ele movimenta-se. Tudo é simétrico e frio. Nada sai do lugar.

É a preparação dos jovens soldados, transformação de homens em assassinos, como os causadores da morte de Kennedy e de outros. Fanáticos com rifles nas mãos em Nascido para Matar, quando Kubrick impede o entendimento sobre o humano e prefere mostrar a passagem do homem à máquina de matar, sem dualidades, sem paixões.

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Primeiro, a preparação. Depois, a guerra. A primeira parte, assim, é mais fria, também mais íntima. À segunda, uma definição: são apenas negócios. E essa observação vem do soldado Hilário (Matthew Modine).

Contra as previsões, ele é o protagonista da história. Está entre a crueldade de Hartman – a chave dos “negócios” – e o infantilismo de Leonard Lawrence (Vincent D’Onofrio) e sua aparência da bondade. Como o próprio Kubrick indicará, o Exército e seus meios existem para desviar o homem de sua natureza, ou mesmo para fazê-la explodir. A primeira parte, durante o treinamento, é inclinada ao desvio; a segunda, à revelação.

Nem todos os filmes de guerra ousaram uma divisão como essa. Kubrick corta a obra como se cada parte existisse isolada. No entanto, há um diálogo nem sempre claro entre ambas. O treinamento antecipa a guerra.

A primeira é sobre repetição. A segunda, sobre o indefinido. Em ambas há soldados aflitos, frente ao mal em suas diferentes formas. Qualquer um dos casos revela o mais humano em meio àquilo em que o humano desaparece: sua capacidade de matar e de ser cruel quando menos se espera. O que assusta não é ver Hartman gritar com seus súditos, mas ver o quanto Hilário ainda pensa antes de espancar Lawrence.

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Ele nada pode fazer senão ser parte da linha de montagem. É a condição de todos, revelada cedo, nos créditos, quando os cabelos são cortados. À frente de seus beliches, os soldados estão presos à posição, aos mandos, e aprendem a gritar.

Aqui, homens pouco falam, às vezes falam sozinhos, colocam nomes em armas, às vezes estão presos – no lugar mais escuro, como aquela grande sala e seus pilares, à noite, às poucas luzes de fora – como seres condenados a matar.

A prisão das prisões: o local em que Lawrence será menos um homem do que uma máquina, em que Hartman seguirá como sempre foi – mesmo quando parece, aos outros, ser diferente – e onde Hilário pagará o preço por desafiar a ordem, ao negar amor a uma figura religiosa. É coerente em meio ao mal. Mas Hartman insiste em afirmar a possibilidade de se cultuar Deus por ali. Dá para entender.

O alojamento dos jovens fuzileiros é sempre o mesmo: não importa o local em que Hartman esteja, surge sempre no mesmo lugar. Anda em círculos, enquanto a câmera produz imobilismo, a aparência de algo, apenas aparências. Ele tem frases marcantes, inesperadas, um verdadeiro homem mal não porque seja assim, mas porque se profissionalizou. Os negócios da guerra.

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A vítima natural é Lawrence: gordo, desajeitado, com um rosto levemente inclinado a rir – um sorriso que nunca chega a explodir e que provoca, por isso, a ira de quem observa, de quem deseja entendê-lo. Kubrick quase permite sentir pena dele e, por sorte, liberta aquele demônio. A situação não chega ao drama.

Quando fala sozinho, desperta a atenção de Hilário, que percebe no companheiro a evolução do mal. Estranhamente, ele desenvolve um bom desempenho com o rifle, pouco a pouco seu único amigo, a quem dá o nome de uma mulher.

Nessa primeira parte, os rapazes terão de aprender a amar à medida que odeiam o diferente. É o que envolve o treinamento: amar a morte. Mas como é possível, se ambas as coisas nunca parecem se encontrar? Nesse meio insano, Kubrick leva a resposta à segunda parte, quando a padronização desaparece. Os jovens não estão mais com seus cabelos raspados, com seus rifles na cama, com seus lençóis arrumados.

Na guerra, odeia-se a tudo com gestos de amor, com certa paixão. Faz-se pose por ali, com coletes recheados de balas, com armas potentes, enquanto as mulheres do outro lado do mundo são objetos sexuais. São usadas e cuspidas. Ao fim, a ironia: a mulher também se revela na vingança, como a atiradora, e de prostituta passa à guerreira. Não precisa dizer muito para demonstrar ideologia e morrer por uma causa, o que talvez os rapazes de Hartman não possam entender.

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Para Kubrick, o Exército produz assassinos e estes certamente colocarão seus rifles contra os próprios americanos. O mal está dentro, diz o diretor, sem apresentar surpresas além de imagens de grande impacto – sobretudo na primeira parte, uma aula de cinema doentio, com tipos diferentes e em choque constante.

Para cada Lawrence existe um Hartman. Um poderia ser a máquina perfeita caso o outro não fosse tão “perfeito” à sua função. Não se pode negar: Hartman é o que melhor representa a guerra, justamente por não estar nela, mas por carregá-la. Faz pensar em alguns malucos anteriores, como George C. Scott em Patton – Rebelde ou Herói? e Gene Evans em Capacete de Aço, homens que personificam a guerra, que não precisam estar no campo de batalha para fazer o espectador entendê-la.

A cada grito, a cada maneira involuntariamente engraçada, Hartman traz o pior do ser humano: sua capacidade em se entregar ao profissional, à forma encomendada, àquele jeito que não permite nada mais do que um homem vazio e repetitivo, alguém que não pode ser imaginado longe daquele local, longe de sua função. É sempre o mesmo, de um lado para o outro, como uma máquina.

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