Frances Ha, de Noah Baumbach

A leveza está nos menores diálogos, os mais perdidos, de Frances Ha. É aquele tipo de filme em que as personagens, ao que parece, “vivem por viver”. Não por acaso, tem sido descrito como um novo exemplar do movimento nouvelle vague.

Há, nessa afirmação, coisas verdadeiras e falsas: maneira fácil e direta de rotular o novo trabalho de Noah Baumbach. Verdadeiras porque sua estrutura, em preto e branco, tal como sua personagem, realmente levam àquele universo de dancinhas ao redor das mesas, de falas inesperadas, de gente descontraída – às vezes até mesmo automática – dos filmes franceses do começo dos anos 60. Falsas porque nem tudo se limita àquela estrutura e porque, ainda mais, Frances Ha tem algo diferente.

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A certa altura, faz pensar em Manhattan, de Woody Allen. Interessante notar que o crítico Ricardo Calil falou de “uma nova Cabíria”, em referência ao antológico filme de Federico Fellini (alguém que Allen nunca perdeu de vista). A ligação com o cômico americano tem a ver com cenas em que um bando de pessoas está à mesa, falando de tudo e nada, em que o preto e o branco recaem sobre seus rostos, em que a vida parece mais moderna – e bela – do que é. Ao mesmo tempo sofisticado e simples.

No fundo, ninguém vive assim. É pura e simples ficção o que se vê em Frances Ha – como era na nouvelle vague. Aqui, Baumbach leva o espectador à história de Frances, longe da adolescência e naquela época da vida de decisões drásticas.

Como uma criança, Frances dança – pelos quartos, pelas ruas, no palco. É a história de uma dançarina que deixa de viver com sua melhor amiga, a menina de óculos grandes, aparentemente nerd e engraçada. De ambas é possível esperar tudo: rodam de um lado para o outro, no início, como se a vida sempre fosse diversão.

À frente surge um conflito. Frances, vivida por Greta Gerwig, perde a companhia de Sophie (Mickey Sumner). Ao mesmo tempo, não conseguirá mais pagar o aluguel do bom apartamento em que vive. Para complicar mais, há uma espécie de traição entre elas: Frances havia recusado um homem para viver com a amiga, enquanto esta não pôde recusar outro convite, de outro homem. Deixa o apartamento inesperadamente.

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Sozinha, a protagonista começa a vagar de apartamento em apartamento, entre sonhos e buscas. É uma bela e feliz odisseia marcada por momentos engraçados, com aquelas expressões infantis de Gerwig que deverão conquistar até os corações mais duros. Além delas, as corridas, as elipses, tudo o que é descartado em nome da passagem do tempo.

Boa parte da magia do trabalho de Baumbach está no tratamento dessa personagem, na maneira como ela diz coisas propositalmente idiotas, como se faz de inocente ao mesmo tempo em que não se limita às coisas belas e certinhas. Em momento-chave, fala sobre um mundo paralelo na troca de olhares, quando duas pessoas se veem e se entendem enquanto se observam. É o que ela e Sophie farão depois, perto do fim.

Com rapidez, Frances está em todos os lugares, em todos os cantos, onipresente à ótica do cineasta. Com ela, o mundo é um pouco melhor, com sua maneira de mesclar a inocência e a graça àquela forma de escapar a tudo o que parece quadrado. Sim, a mais pura ficção, para o público pensar no quanto a vida seria boa fosse tudo isso verdade – apesar dos obstáculos, de um amor de amigas irrealizado (nada lésbico). É sobre viver. E sobre graça. Não para rir sem parar, mas, ainda mais, para emergir nas menores coisas elevadas pela felicidade. Há, portanto, uma dívida com a nouvelle vague.

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