O que ficou da ironia

Uma tragédia, quando cercada de ironia, pode misturar o fato à ficção. Caso recente está na morte de Paul Walker, o louro conhecido pela famosa série de filmes sobre carros envenenados Velozes e Furiosos. Para ser o que era, nos filmes, não precisa de muita coisa: estava lá, servia seu papel, o papel de astro.

paul walker1

Ou candidato a astro. Ocorre que Paul Walker morreu. E não morreu de qualquer forma. A vida – por coincidência ou não, já que em Hollywood isso sempre é questionável – reservou-lhe ironia. Seria então lembrado não pelo que fez, mas por seu desfecho, morto em um acidente de carro, no banco do passageiro de um Porsche.

Seria mais interessante, à trama da vida falseada, que ele estivesse ao volante. Não estava. Um ponto a menos. No entanto, estava no carro: tornou-se parte de uma morte brutal, sem os efeitos e os dublês do cinema, sem ninguém para lhe socorrer como seria em um filme de sua famosa franquia. A vida nem sempre imita a arte.

Walker poderia morrer em qualquer outra circunstância. Da forma como foi, aumentou os comentários e as manchetes. Não é necessário explicar mais. Os fãs estão imaginando como ele “curtia” o carro, ou como “corria” pelas ruas. Pode nascer daí a imagem do rebelde, ainda que não case bem a Walker – nunca pareceu ser o “menino problema”, um Robert Downey Jr. Estava mais próximo do herói, o “bom moço”.

Parecia mais disciplinado. Não era um grande ator. Desfilava beleza jovem aos 40 anos de idade. Em Hollywood, o envelhecimento esconde-se bem.

james dean

Com um Porsche, ainda mais novo. Com tal morte, ainda mais. Antes, nos anos 50, James Dean também morreu a bordo de um Porsche, à estrada. Uma morte igualmente brutal em um acidente. Mesmo que digam o oposto, gostava de correr – ou passava essa imagem: viva o “agora”, o “momento”, como se não houvesse futuro.

Seria lembrado para sempre como o “rebelde sem causa”: era jovem, belo, veloz e, para piorar, afrontava seus pais e seus companheiros nos três filmes famosos que fez. Lutava sim contra as normas e as instituições. Dean, ao contrário de Walker, tinha mais relevância porque seus filmes e seu talento eram maiores. Walker, na tela, é produto desse tempo de heróis bondosos, planos, de franquias milionárias para quem não deseja ir além de uma diversão momentânea. Como dirigir em alta velocidade.

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