Em Nome do Pai, de Jim Sheridan

Antes de se tornar rebelde com consciência, o protagonista de Em Nome do Pai representa um problema àquela sociedade da época: gosta de fazer o que vem à mente, usar drogas, embebedado pelos excessos típicos aos adolescentes. Primeiro, um problema à sociedade; depois, aos poderosos da Justiça.

Acusado de fazer parte do grupo revolucionário IRA, quando a Irlanda pegava fogo nos confrontos com os ingleses, ele move-se à base da fúria, em exato oposto ao pai.

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Gerry Conlon (Daniel Day-Lewis) não faz parte do IRA, mas esbarrará no grupo. Eis a grande ironia do filme de Jim Sheridan: é preciso entender as questões relacionadas à repressão para se tornar um homem repressivo. Mais tarde, muda de novo: coloca-se ao lado da lei, de uma advogada, para tentar escapar pela porta da frente.

Poderia ser mais um entre tantos filmes sobre homens presos injustamente. Sheridan, contudo, insere aqueles momentos físicos em que homens batem a cabeça – seres diferentes mas do mesmo sangue, pessoas que falam indiretamente e quase sempre revelam mais sobre si mesmas quando em silêncio. Dizem a verdade.

Poderia ser difícil acreditar em Gerry. O mistério está com Day-Lewis, que prende a plateia: constrói um vagabundo com força, aquele ser que vaga sem fazer nada, com seus pequenos furtos, com sua bagunça, com sua forma de apenas parecer mal.

Talvez seja, não se sabe muito bem. O que o move, quase sempre, é a fúria. Quebra cadeiras, briga com os outros, cede à tortura de um sistema que serve seu típico chá da tarde – fora das salas, dos interrogatórios – enquanto homens sofrem as consequências. É como se aquele mal estivesse tão ligado aos costumes quanto o típico chá. Há hora para tudo nos modos britânicos, mesmo às escondidas.

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Em Nome do Pai leva outra grande personagem ao lado de Gerry, justamente seu pai, Giuseppe (Pete Postlethwaite). Como o filho, ele é acusado de fazer parte do IRA e colaborar para práticas terroristas em solo britânico. Nesse episódio, outras pessoas que nada tinham a ver com a explosão de um pub terminam presas injustamente.

O pai é aquela personagem essencial, a peça para a formação da consciência do herói, mais do que um pai de sangue. É com seus ensinamentos, com seu drama e com sua dor que Gerry encontrará a saída. A certa altura, ele será capaz de explicar a dificuldade em lidar com o velho homem, que vê nele apenas seus problemas.

O título não evoca apenas o homem ao lado. Traz também a religião à tona. Gerry é religioso, mais comum do que parece – apesar da aparência incomum. Com o pai, ele forma-se, torna-se completo: um homem de força e poderes inimagináveis. Um homem de grito, de desespero. Pode furtar a casa de uma prostituta e pouco antes dar uns trocados a um morador de rua. Nele, bem e mal convivem bem.

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No filme de Sheridan, 15 anos passam voando, e de forma suficiente para o público entender. Nem por isso a dor é menor, nem por isso a caracterização de Day-Lewis – como o problema necessário àquele sistema de falsidades – enfraquece. A cada nova passagem, ele deixa-se mudar, demarca seu espaço, seu jeito, sua raiva.

A cada nova situação, é outro homem sem perder a essência: do moleque problema sobre os telhados da velha Irlanda àquele homem duro, imbatível, a caminhar pelo tribunal para escapar pela porta da frente.

Não se explica um herói sempre com facilidade. Não raro, surgem nele características ambíguas, detalhes curiosos, maldades à parte – nada a transformá-lo o suficiente para cair em desgosto. Como Gerry, Day-Lewis não cai nunca – nem mesmo quando comete seus pecados aos olhos serenos do pai, a quem ele deve tudo, inclusive a consciência.

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