Renoir, de Gilles Bourdos

Enquanto o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir dava algumas de suas pinceladas, a Primeira Guerra Mundial estava em plena marcha em 1915. Sua pintura – pelo menos para ele – era uma forma de escapar do horror por meio da beleza.

Apesar de não ter um único disparo, uma única imagem de conflito, Renoir, de Gilles Bourdos, é sobre a guerra. Ou melhor: é sobre a capacidade de seu horror, de uma forma ou de outra, invadir a vida pacata do homem das artes, com seu filho pequeno, suas criadas e sua jovem musa, a modelo Andrée (Christa Theret).

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Não é um filme sobre a vida do pintor. Prefere um curto recorte enquanto segue a guerra: o encontro do pai com outro filho, Jean (Vincent Rottiers), que volta do conflito machucado e se vê de joelhos à beleza de Andrée.

No pai há a busca da beleza, no filho a da experiência. Simbolizam momentos diferentes da vida. No menor, Coco (Thomas Doret), há um pouco das duas coisas, sendo capaz de lançar tinta sobre o corpo nu de Andrée enquanto ela dorme. Ou seja, é capaz de fundir a pintura ao corpo, a matéria da beleza à da experiência.

A moça, por sinal, é o que há de mais importante aqui: a peça que liga todos esses pontos, o ser vivido, íntimo aos ambientes mundanos e sujos que nem o pai e nem os filhos passam por perto. Para a perplexidade de Jean, ela pode imprimir a experiência humana sem um pingo de dor, ao contrário daquela guerra descerebrada.

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Renoir revela-se mais ambicioso do que parece. Repousa, ainda assim, na quietude constante de uma casa de campo na qual o pai sai em busca de sua beleza, com seus quadros pintados ali, enquanto Andrée despe-se para ele. A casa, cercada por árvores inquietas, é como um refúgio e, em momentos, é como suas pinturas.

O pintor, vivido por Michel Bouquet, quase não tem vida: está com dores constantes nas mãos, mantém-se em uma cadeira de rodas e fala apenas o suficiente. É sábio sem esforço. Como o Lincoln de Daniel Day-Lewis, não é possível chegar ao seu interior. Revela-se em poucas palavras e ações, de olho na janela, ao fim, como se fitasse a eternidade. O que pensa? A resposta cabe a qualquer um.

Para compensar essa dificuldade de penetração, o personagem cerca-se de figuras mais humanas. É o caso da moça, também de Jean, o filho que descobre o cinema e que se tornaria, mais tarde, um cineasta famoso – talvez o maior da França. Um de seus melhores filmes, A Grande Ilusão, é sobre a amizade improvável entre dois oficiais de alta patente, um alemão e outro francês, em plena Primeira Guerra Mundial.

É como se o filho contrariasse o pai e dissesse: “ainda há companheirismo e bondade na guerra, e o homem não é tão ruim quanto parece”. Nem tudo é só beleza ou horror.

Nota: ★★★☆☆

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