Segredos de Sangue, de Chan-wook Park

As personagens parecem fantasmas, sempre assustadas, como se Segredos de Sangue fosse mais um filme sobre uma casa assombrada por espíritos. Não é, mas poderia ser. Sua estrutura antecipa o mal vivo em cada pequena parte.

Aqui, o susto é esperado e nem sempre chega. É sobre sangue, sobre uma família transformada pela morte do pai, pela chegada do tio, pelo desentendimento – da menina ao centro, de adolescente à mulher formada – sobre seus próprios desejos.

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Quando uma aranha avança, lentamente, pelas suas pernas, até chegar a suas partes íntimas, fica claro do que se trata o primeiro filme de Chan-wook Park nos Estados Unidos: a descoberta do sexo. Tornar-se adulto, nesse caso, é reconhecer o caçador que vive no interior de todos, até mesmo nos mais ingênuos, como um animal faminto.

Segredos de Sangue é uma nova versão de A Sombra de uma Dúvida, obra-prima de Alfred Hitchcock concebida nos anos 40, quando procurar as relações sexuais entre a menina e seu tio era um exercício mais instigante – à época em que nem tudo (longe disso) poderia ser mostrado. Restava a sugestão, especialidade de Hitchcock.

A nova leitura deseja ir além: não tem medo de expor o que já se sabe sobre a relação entre essas personagens, enquanto outras – a mãe, a tia, a empregada, o pai, o bonitão da escola e o xerife – surgem para acrescentar um pouco de tempero.

Mesmo com todos esses itens à deriva, navegando no oceano frio de Park, o que interessa é o rostinho de anjo ao centro: a menina vivida por Mia Wasikowska, India Stoker, adolescente que fica sozinha quando o pai, seu companheiro, é assassinado.

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A obra inicia-se com essa morte. A mãe, Evelyn Stoker (Nicole Kidman), sofre, ou apenas parece sofrer em sua forma de porcelana, em seus lábios e cabelos impecáveis. A mãe não tem vida e o pai, veja só, é um espírito. Não poderia ser diferente: Evelyn não tem cheiro, sequer um pouco de graça. Falta a ela o atrevimento e, ao mesmo tempo, a ingenuidade observada na versão de Hitchcock.

Mas o que se pode fazer com essa adolescente, naquelas escolas estranhas, atuais e de gente excluída? É como deve ser e não adianta pensar na Alice de Tim Burton.

O tio é cínico, bonitão e com as palavras e gestos certos: tem tudo para fazer as duas mulheres – mãe e filha – caírem de joelhos às suas formas. Chama-se Charles e é vivido por Matthew Goode. Ambas as mulheres, por meios diferentes, querem um substituto ao homem morto, ao pai sumido – uma como ponte ao sexo enquanto mero prazer, a outra como ponte ao sexo como fonte de descobrimento e transformação.

Isso significa que a filha tem algo a mais. A mãe nada tem, o que faz de Kidman quase um bibelô passado, esquecido naquela grande casa em que falta sujeira.

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A certa altura, chega o sexo, também a morte. A menina, ao ver a mãe nos braços do tio, corre para se entregar a qualquer um. Escolhe um belo garoto da escola. O belo, por sua vez, converte-se em revolta. Tenta abusá-la, mas é morto pelo tio – enquanto está sobre ela, possivelmente na sequência mais interessante por aqui.

Há muita representação nas imagens de Park. Uma delas, quando a menina corre com o garoto para o bosque, remete à entrada na vagina, à noite. Depois, durante o crime, os olhos de India mesclam prazer e dor, e ela será vista não apenas sofrendo sob a água do chuveiro, mas também se masturbando à luz das lembranças.

É óbvio quem está por trás dos crimes. Park rejeita o suspense de bases simples – no bom sentido do termo – da obra de Hitchcock. Quer ser existencial, sem medo de entregar personagens com nada a agradar, como fica evidente no encerramento abrupto, que nada acrescenta – nem mesmo algum susto. O diretor de Oldboy perde-se quando compõe seus belos fantasmas, sem a capacidade de transmitir medo ou tensão.

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