Exótica, de Atom Egoyan

Um homem vai todas as noites a uma boate, como se ali fosse uma extensão de sua própria vida. Naquele local decorado como uma selva, ao som de um DJ de frases provocantes, à imagem de uma bela mulher – como roupas de colegial – sobre o palco, ele tenta encontrar algo perdido. É o mistério que, pouco a pouco, Exótica revela.

O diretor Atom Egoyan não se contenta apenas com essas peças e o ambiente exótico – como diz o nome da casa noturna. Para ele, novas personagens, situações e ambientes são necessários. Com isso, mais mistério.

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Leva, portanto, a um universo no qual o simples da vida mistura-se aos gestos inusitados: pessoas que se entregam à noite não apenas para descobrir o prazer, mas também – em seu interior profundo – para descobrir a si mesmas.

A começar pelo protagonista, Francis Brown (Bruce Greenwood), homem à primeira vista comum, auditor da receita fascinado por uma stripper da casa noturna que dá nome à obra de Egoyan e onde se passa boa parte dela. Ele, de terno e barba a fazer, não escapa à imagem da moça, com olhos fixos no corpo feminino que se mexe em sua mesa. Segundo as regras da casa, esse corpo não pode ser tocado.

As regras de boa convivência são impostas apesar do clima aparentemente selvagem: a decoração da casa noturna, como uma selva, é semelhante à loja de animais exóticos de outra importante personagem, Thomas (Don McKellar).

Logo na abertura, esse rapaz chega de viagem. No aeroporto, tem sua mala revistada e é observado por outro homem, também de olhar fixo, através de um vidro. Egoyan resume, assim, sua obra complexa, de cartas bagunçadas, em terreno estranho: um filme sobre a busca de um homem por aquilo que o liga à sua parte perdida e passada.

Isso fica mais claro quando a história de Francis vem à tona: ele perdeu a filha, paga para uma jovem babá (Sarah Polley) ficar em sua casa sem nada a fazer e tem uma relação passada com a stripper Christina (Mia Kirshner), que remonta à paternidade.

Exótica não deixa de ser sobre pais e filhos, sobre renascimento. Se, por um lado, Francis perdeu a filha gerada em um lar comum e com amor, por outro a dona da boate (Arsinée Khanjian) surge grávida. Pretende dar continuidade aos negócios na casa noturna herdada após a morte de sua mãe, a antiga proprietária.

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A isso se soma a suposta relação gay entre essa mulher e Christina, tal como o suposto triângulo completado pelo namorado da segunda, o DJ Eric (Elias Koteas).

O ovo traficado por Thomas, cujo interior o espectador e nem a personagem descobrirão, é outra das pequenas partes misteriosas. Os pais, as mães e seus filhos são frutos dessas duas selvas: a casa noturna e a loja de aquários com águas turvas.

Tudo a seguir nasce desse meio que simula regras e amostras de ordem, no qual o protagonista vive sob o manto do trabalho comum, seduzido por uma arma em uma gaveta, também pela ideia de reencontrar uma mulher que, sozinha, liga-o ao passado perdido, à filha morta e reencontrada de maneira inesperada.

Egoyan esculpe um labirinto de muitas camadas: roupas, vidros espelhados, palcos, portas de banheiro, câmeras de vídeo e aquários. Seu trabalho remete sempre à necessidade de ver, também ao impedimento em ver o que se deseja encontrar. A mulher nunca está nua por completo e a imagem da filha é sempre mostrada através de uma fotografia, ou através de uma velha gravação em vídeo.

A mulher deixa as camadas (roupas) caírem e não se entrega por completo. Quem é ela, com aquele andar curioso e olhar de criança, ao fim? Não se sabe. Egoyan deixa pistas, não as respostas: permite a abertura a um universo de animais fora do controle.

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