Dean Martin: pura diversão

A pequena cidade de Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, tem um homem à espera dos outros, espécie de guardião que fica por ali, parado, como um porteiro.

É alguém para protegê-la, um sinal aos amigos caso algum bandido apareça. É Dean Martin, como um alcoólatra e pistoleiro, tipo de herói largado, sem qualquer sinal de confiança: um herói improvável ao faroeste de contornos clássicos de Hawks.

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Na trama, ele é chamado de “Borachón”, ou, aos amigos, apenas Dude. É sua personagem mais famosa, quando, em uma carreira sólida, já havia se despregado de Jerry Lewis e feito sucesso ao lado de Frank Sinatra.

Martin e sua turma, o Rat Pack, faziam sucesso porque eram como pareciam ser: homens da noite, divertidos, sempre com uma bebida à mão. Seres galantes que, em Onze Homens e um Segredo, pareciam estar sempre se divertindo. E estavam.

Eis um dos segredos desses homens do cinema clássico: viver um jeito divertido e fazer o público crer nessa diversão. Era uma das fórmulas de Martin mesmo quando tinha de ser o “Borachón”, suposto imprestável, nada capaz – crê-se – de guardar uma cidade, uma delegacia e ser o sinal aos amigos sob os ataques de outros homens armados, os bandidos que saem em busca de seu líder preso.

Os contornos dessa história fazem parte da mitologia do oeste, sobre bandidos e mocinhos em duelo, algo como se viu – com certas diferenças – em Matar ou Morrer. Mas Martin, aqui, é a chave do enigma: um trágico engraçado, um ator tentando provar que era capaz de fazer um papel sério. Ao fim, torna-se a feliz surpresa.

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Não é fácil ser astro e coadjuvante ao mesmo tempo. No maravilhoso Deus Sabe Quanto Amei, Martin – um jogador livre – está à sombra de Sinatra.

Em Onde Começa o Inferno, está à sombra de outro grande, John Wayne, o rei dos caubóis norte-americanos. Essa fusão entre homens diferentes tem, em tela, algo curioso que Hawks faz parecer engraçado. É prazeroso, é eterno. Em uma determinada sequência, Martin e Wayne saem à noite apenas para caminhar por uma rua. Andam como lobos reconhecendo o território, enquanto o espectador acompanha.

Eram tempos de outros prazeres. Martin, nesse meio, era uma “carta na manga”, o coadjuvante prestes a roubar a cena. Quase derrotado por si mesmo, Dude sempre fará qualquer fã de faroeste lembrar a escarradeira à qual serve, no bar da abertura. O vilão ri e joga na escarradeira uma moeda. Dá a Martin uma esmola.

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Fica a impressão, em seus filmes mais conhecidos, de que não poderia sustentar o protagonista. Sua leveza faz pensar no coadjuvante de luxo, o homem para dizer as palavras certas e à espreita, o melhor amigo do herói.

Faz isso em Deus Sabe Quanto Amei, mais próximo de si mesmo, como amigo e malandro em quem o espectador ainda aceita confiar. Vive um viajante sempre pronto para encher sua mala e fugir: personagem que casa à perfeição com o espírito do homem de Sinatra, perdido e apaixonado na obra de Minnelli.

No faroeste ou no drama de amor, Martin pode ser tipos opostos sem perder a marca do homem divertido, o que se veria em Beije-me, Idiota, de Billy Wilder. Nesse caso, em uma comédia ácida com os toques sofisticados do diretor – para ser, sem medo e descontraído, o que no fundo sempre foi: ele mesmo.

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