Obsessão, de Lee Daniels

O corpo de Zac Efron vem pela água, lentamente, até seu rosto explodir na tela. Essa imagem dá uma ideia do que Obsessão não é: a publicidade de algum paraíso próximo aos pântanos da Flórida, local de pessoas estranhas, até assassinas.

Com Obsessão, o diretor Lee Daniels apresenta o paraíso e seu oposto: um filme sobre dois mundos diferentes quase sempre misturados em cores fortes, em pessoas exageradas, em rapazes angelicais, em figuras dúbias.

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É uma história sobre um assassinato. Quer ser mais. É sobre um garoto, e sobre como essa mesma personagem vê sua vida transformada ao se apaixonar por uma mulher dada a sair com homens por quase nada, uma ninfomaníaca com pouco cérebro a compartilhar. Sem força, ela é interpretada por Nicole Kidman.

Mulheres assim já foram vistas antes. Ela tem algo deixado por Marilyn Monroe, quando mulheres fáceis, com pouco cérebro e atraentes eram mais contidas, mais nostálgicas, um pouco mais divertidas. Viviam apenas o momento. Apaixonar-se era uma brincadeira, com um paraíso possível à espera de todas.

Não é o caso de Obsessão, já que Daniels sempre leva o espectador aos trancos, ao sangue, à explosão de violência observada antes no fraco Preciosa – Uma História de Esperança, sobre uma menina negra e obesa que luta para sobreviver.

O racismo também está presente na obra seguinte de Daniels. Corre ao fundo, sendo possível sentir a dor gerada, o medo, algo que alfineta o espectador: leva-o àquela época em que gritar “negro” ao outro era parte de todos, ou quase todos.

Ao mostrar o sujo paraíso à espreita, quando dois jornalistas investigam um suposto caso de injustiça levado aos tribunais, Obsessão parece uma fita policial ou de suspense. Está mais para um drama sobre os tipos estranhos dos Estados Unidos, convulsão de seres diferentes por um lado, semelhantes por outro.

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Jack Jansen (Efron) é um jovem entregador de jornais, bom nadador, irmão do jornalista Ward (Matthew McConaughey). Certo dia, o irmão retorna à pequena cidade e, com outro homem, apura a história de assassinato de um importante policial da região, conhecido por esfolar alguns negros.

Herói para alguns, monstro para outros, o policial chegou a ganhar uma estátua em sua homenagem – algo irônico, sob a narração da empregada negra da casa dos Jansen (Macy Gray), amiga do jovem Jack (que, por sua vez, cresceu sem conhecer a mãe).

A história tem suas voltas. Ora ou outra toca nessa América destruída pelos excessos e pelas diferenças, aos olhos do menino que se descobre ao se apaixonar pela personagem de Kidman, a loura fácil que vem trocando cartas com o suposto assassino do policial, o assustador Hillary Van Wetter (John Cusack).

Todas as personagens encontram-se a certa altura: todas têm algo a amar ou odiar nas outras, a descobrir, a repudiar. O fim não escapa aos pântanos cheios de lama, com o menino e seu irmão em busca da bela loura, cercados por jacarés.

Daniels faz um filme estranho não por causa de seus resultados ou do encerramento um tanto amargo, mas pelo que almeja ser e nunca consegue. Não se define nunca, o que, para alguns, parece mais uma qualidade do que um defeito. É ousado em suas levezas, em suas voltas, quase sempre indigerível em seus excessos e sua violência. É como o passar leve de uma navalha no pescoço, cruel e explosivo.

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