A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

À beira mar, um homem desenha sobre uma folha em branco. Às aparências, um homem velho, sozinho, em busca de paz para executar seu trabalho. Ele não sabe que está próximo a uma descoberta: o encontro com uma menina, ou mulher, saída do mar e carregada por homens, afogada, que mudará sua vida. Fará dele um obsessivo.

Esse clima inicial – que retorna ao fim – é fundamental em A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile: é uma fusão de dois mundos diferentes, quando o homem busca fazer, no papel, a sua mulher, e quando ele acaba por encontrá-la.

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Talvez não seja a mulher esperada: jovem demais, impulsiva demais, inconfiável quase sempre. Mas ele, Dino Romani (Ben Gazzara), deseja-a cada vez mais. Torna-se incontrolável. No início, parece não dar bola: olha para a moça como se ela fosse não mais do que uma garota fútil e aventureira. Mais tarde, e pouco a pouco, estará à sua procura como um louco apaixonado, às vezes em papel de pai protetor.

Ela é Nicole, com o corpo, a pele e o olhar que deixaria qualquer homem maluco. É Ornella Muti, uma das mulheres mais belas do mundo à época. Triste, por isso, constatar que falta algo àquelas curvas tão perfeitas: um pouco mais de substância interna, com uma personagem que, apesar de atraente fisicamente, nada tem a oferecer quando se deixa tomada – sempre – pelo desequilíbrio psicológico.

Não poderia ser diferente: é a história de um homem aparentemente equilibrado, atrás de preciosos traços, contra uma menina inclinada à loucura constante.

Completam-se: ele corre atrás, ela finge paixão. Não há, em ambas as personagens, muito respeito ou muita sinceridade. Quando ele descobre os problemas dela, simplesmente se fecha em seu próprio mundo. Ignora-a. Ela, por sua vez, fará sexo com outro homem por puro prazer momentâneo, na praia, quando tomava sol.

Em um hotel, quando ela despe-se ao camareiro, para que simplesmente seja vista, ele apenas observa de outro cômodo: é como compreendesse o jogo a ser jogado.

Na verdade, a bela de A Garota de Trieste precisa se sentir viva e esse é o meio encontrado: parecer desejada, observada, parecer uma mulher completa ao olhar masculino sedento, de homens variados e desconhecidos.

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Terá amado Dino? O espectador tem dúvidas. Ao passo que fala de amor, age às vezes de forma oposta: escreve cartas como se estivesse em outro lugar, com outro homem em seu caminho. Em Nicole, tudo é inconstância. Ela é o desenho que o cartunista não consegue completar, a imagem que não consegue esculpir.

Não por acaso, em determinada altura ele sacará uma câmera e a fotografará enquanto dorme, em sua cama. É a forma de tentar captá-la por completo, sem a representação da tinta sobre o papel. Nesse caso, ele necessita algo mais.

A câmera mostrará essa menina de diferentes formas. Ela, ao longo do filme, surgirá sempre outra, nunca a mesma. Às vezes mais velha, às vezes mais livre. Ao fim, como a Constance Towers de O Beijo Amargo, exibe mais do que uma careca: um olhar indecifrável, um olhar de repúdio, de vazio, como se chegasse o fim.

Outra sequência também faz pensar em outro filme de Samuel Fuller, Paixões que Alucinam. Trata-se do momento em que Nicole é atacada por três mulheres no hospital psiquiátrico em que está internada, comandado pela personagem morosa de Jean-Claude Brialy. Elas abusam da moça, simulam sexo, em momento tão forte quanto o ataque de um bando de mulheres ao jornalista infiltrado na obra de Fuller.

Os encantos de Nicole deixam Dino sem ação. Resta desenhar, ao fim, enquanto olha à jovem musa com perplexidade, enquanto ela desaparece no mar. Pensava ter encontrado o traço final e perfeito, a mulher formada. Ironicamente, encontrou alguém sem identidade definida, nova personagem a cada instante.

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