Uma Aventura na África, de John Huston

Enquanto Humphrey Bogart vive o beberrão em pessoa, Katharine Hepburn é puro controle em Uma Aventura na África. Durante a guerra, esses diferentes tipos serão levados ao confronto: o exagero dele contra o equilíbrio dela.

Nesse caso, a guerra é inesperada e faz tudo diferente. O que eles decidem fazer – após a morte do irmão dela e da destruição de uma tribo de índios – é lutar. Apenas isso, antes do amor, fará algum sentido na obra de John Huston.

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Pessoas normais provavelmente não fariam isso. Em um filme de Huston, com aquele toque de amor clássico, as regras são outras e a aventura tem doses de diversão.

Em tela, as personagens não podem morrer e o espectador sabe que, para elas, apenas algo bom será reservado. Elas entregam logo cedo todo o esquema, descortinam tudo, sorriem apesar do local, da época e da desgraça. Isso não atrapalha o resultado do belo filme de Huston, sem o cinismo de outras de suas obras.

As personagens são seres tão felizes e em descoberta que nada é capaz de detê-las. Quando tramam explodir um grande barco cheio de alemães – ela para se vingar, ele para satisfazê-la –, é como se encontrassem uma resposta àqueles tempos loucos: um torpedo ao coração do inimigo, enquanto se vive apenas o momento.

Continuam e apostam: Charlie Allnut (Bogart) leva a religiosa Rose Sayer (Hepburn) a bordo de seu barco, pelo rio, para uma aventura. Os inimigos estão por lá, simplesmente à espera, e existem sempre como inimigos. Não precisam se explicar.

Pelas águas agitadas, ela descobrirá uma experiência física. Chegará a algo revigorante. Esse contato com a natureza seria o equivalente ao sexo que o filme não pode mostrar. As personagens são íntimas ao cinema clássico, apaixonantes. Impossível imaginar algo além do toque na pele, do beijo simples, do abraço e do companheirismo.

Conseguem traduzir o amor. São companheiros nesse rio cercado por crocodilos, nessa odisseia de Huston sobre como é possível enganar o público, diverti-lo e fazê-lo sonhar que Allnut, um dia, poderia não ficar com Rose. Ele não pode.

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Caso contrário, seria uma traição, o que é impossível com as regas vistas aqui. Portanto, o espectador é levado ao que se põe ao meio: o sorriso dela, a forma como abre lentamente os lábios, expõe os grandes dentes e deixa a felicidade explodir na expressão. Dele basta um olhar ao lado, curioso, desajeitado, ou a forma como – após se salvarem de uma correnteza – corre para abraçá-la, feliz da vida.

Mais tarde, envolvidos pelo clima selvagem, de roupas rasgadas, sujos, parecem-se ainda mais. Tornam-se equivalentes. Ela se transforma e, pela África, é levada ao lado selvagem dele – ou àquele lado em que parece mais humano enquanto desleixado.

Na abertura, Huston traz a mata fechada, a luz através das árvores e plantas: leva o espectador a uma redoma na qual é preso pela selva, pelo som da vida selvagem. Pouco depois, chega-se ao homem, a uma tribo indígena, a uma igreja. Depois, ao barco e aos soldados, e à guerra que bate à porta.

O mal, aqui, é a civilização. Há o colonialismo, a clara opressão religiosa. Naquela tribo, Allnut lança uma parte de seu cigarro ao chão e os índios lutam para pegá-la. Ele ri. Na igreja, o som da música não ultrapassa o som das pessoas. Não é muito ordenado o que ocorre por ali. É como se Huston mostrasse a confusão e, de forma interessante, a impossibilidade de os nativos verem-se envolvidos por aquela crença.

Isso explica porque a civilização e seus vícios são negados, porque o centro é um homem e uma mulher de amor simples, com coragem para colocarem o pescoço em risco, deixarem o barco e usarem as únicas bombas que lhe restam. Além do amor, nada parece valer muito a pena no mundo louco de Uma Aventura na África.

Quando precisam de ajuda, ela olha para o céu, une as mãos e ora. Naquela situação, Deus torna-se a única saída. Huston vem para dar um empurrão e faz chover, faz a história mover-se ao improvável. O diretor sabe que tudo vale para se chegar à diversão. Dá vida àquelas duas personagens com os pés fincados no passado, tão perto do futuro, tão aparentemente velhas: gente disposta a sorrir com a brincadeira.

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