Jobs, de Joshua Michael Stern

O segredo do sucesso de Steve Jobs é logo revelado: ele é um homem do mundo, da natureza, da arte, das mensagens de vida e do olhar além do alcance comum. Não é um homem qualquer: é uma divindade.

Pois esse é o problema de Jobs, de Joshua Michael Stern. Vê-se sempre alguém distante, nunca natural: alguém tão cheio de contornos que mais parece uma miragem. Assim, resulta chato, sem qualquer humanidade mesmo com aquelas palavras que parecem querer mudar o mundo – saídas, talvez, de algum livro de autoajuda.

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Quando retratados assim, os gênios são chatos. Não sobrevivem nem mesmo à piada que soltam ora ou outra. São seres quase sempre explosivos, quase sempre incompreensíveis, quase sempre desligados da normalidade.

Jobs, o filme, tem essas características levadas à sua personagem, o criador da Apple e um dos homens – justiça seja feita – que mudaram a maneira de pensar os computadores, quando pouca gente acreditava no potencial dessas máquinas dentro da casa das pessoas, os consumidores, ao lado de qualquer outro eletrodoméstico.

Jobs, a personagem, ou o homem que um dia existiu, entendeu a máquina como extensão humana. O computador tornar-se-ia, então, indissociável – o que realmente parece ter ocorrido na atualidade, com as máquinas de bolso.

A abertura do filme de Stern mostra, de cara, o homem ali retratado como gênio. Ele caminha em um corredor de poucas luzes, chega a uma escada. À frente, uma foto de Albert Einstein aguarda-o, como se seguisse os passos de outro grande homem.

Figura importante ao tempo presente, Jobs é interpretado por Ashton Kutcher, impossibilitado de dar à personagem o peso que necessita. É como se o espectador visse, em cena, sempre alguém tentando tocar o mito sem o encarnar com profundidade. Não poderia. Kutcher é limitado ao rosto inteligente, como quando levanta as pálpebras para anunciar possíveis descobertas, “iluminações”, ou para soltar uma frase de efeito.

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Não consegue dizer quem, no fundo, é Jobs, e, pior ainda, está sempre distante da figura humana esperada. Cai sempre no vazio, à espera do efeito da câmera, a depender da trilha sonora que vem para socorrer e avisar: chegou o pico dramático.

O filme fracassa do início ao fim, dentro de uma linha de produção voltada às obras baseadas em figuras verdadeiras. O mito é vazio e deseja, com tão pouco, resumir muito. Basta olhá-lo para ver o que representa.

O mesmo poderia ser dito do recente Lincoln, de Spielberg. No entanto, um grande ator, Daniel Day-Lewis, serve o ex-presidente assassinato com detalhes, com pequenos trejeitos, com aquela humanidade que brota facilmente do discurso. Lincoln e Jobs são tratados como mitos. A cada um, construções visuais servirão de formas diferentes.

Por que os gênios, com frequência, são tão chatos? É uma das perguntas que, durante Jobs, não sai da cabeça. Por que o espectador deveria se sentir emocionado em qualquer reunião na qual são apresentadas novas máquinas, como se aquilo fosse um berçário e estivesse a surgir uma nova criança, um novo filho?

Por trás de Jobs está uma mensagem bela e irreal: o novo mundo sonhado pelo gênio só poderá ser construído à base da máquina pensada como arte, à base das pessoas em busca do melhor às outras e da felicidade, sem pensar apenas no lucro ou no custo de um projeto. Seria bom se fosse verdadeiro, tal como o Jobs de Kutcher.

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